Corrupção

Um governo à beira da ruína

Mesmo pressionado pela delação bombástica dos donos da JBS e pela insatisfação popular, presidente afirma: “Não renunciarei”

18 de Maio de 2017 - 21h34 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Vinicius Peraça
vinicius.peraca@diariopopular.com.br 

Um ato no Mercado Central reuniu cerca de três mil pessoas, de acordo com os organizadores (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Um ato no Mercado Central reuniu cerca de três mil pessoas, de acordo com os organizadores (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Representantes de partidos políticos, sindicatos, estudantes e pessoas que circulavam pelo centro da cidade caminharam pelas ruas Marechal Floriano, Osório, Neto e Deodoro e, entoando gritos de “Fora Temer! (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Representantes de partidos políticos, sindicatos, estudantes e pessoas que circulavam pelo centro da cidade caminharam pelas ruas Marechal Floriano, Osório, Neto e Deodoro e, entoando gritos de “Fora Temer! (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Não foi com a mesma voz tranquila e vocabulário rebuscado com que costuma fazer seus pronunciamentos que Michel Temer (PMDB) falou ao país nesta quinta-feira (18) à tarde. Em meio a uma série de especulações sobre sua renúncia, o presidente apareceu no segundo andar do Palácio do Planalto às 16h10min e disparou: “Não renunciarei! Sei o que fiz e sei da correção dos meus atos”. Para os aplausos de assessores e alguns poucos ministros que o acompanhavam.

Sob pressão após a revelação das delações dos proprietários do grupo JBS, em que teria sido gravado dando aval para a compra do silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) com propina da empresa, Temer tentou acalmar aliados que iniciavam um desembarque do governo, reduzir os fortes efeitos da crise política no mercado e, principalmente, evitar que a pressão pela sua saída do cargo aumentasse.

“Em nenhum momento autorizei que pagassem a quem quer que seja para ficar calado. Não comprei o silêncio de ninguém. Não temo nenhuma delação, não preciso de cargo público nem de foro especial.”

Não deu resultado. Ao fim do dia, oito pedidos de impeachment já haviam sido protocolados no Congresso. Enquanto isso, por todo o país começaram a pipocar protestos contra o presidente. Inclusive em Pelotas.

Às 17h30min, um ato no Mercado Central reuniu cerca de três mil pessoas, de acordo com os organizadores. Conforme a Brigada Militar, foram 300 manifestantes. Representantes de partidos políticos, sindicatos, estudantes e pessoas que circulavam pelo centro da cidade caminharam pelas ruas Marechal Floriano, Osório, Neto e Deodoro e, entoando gritos de “Fora Temer!”, exigiram a realização de eleições diretas. “Tem que sair para a rua mesmo e protestar. Se for para melhorar, precisamos da saída do Temer”, disse a empregada doméstica Carmen Cavalheiro, 42, enquanto observava a manifestação.

O ato foi pacífico durante quase todo o tempo. Apenas um incidente foi registrado, quando um grupo de homens com o rosto encoberto tentou quebrar os vidros de uma agência bancária e foi impedido por outros manifestantes.

Aécio Neves também é flagrado
Não foi somente sobre o PMDB e Michel Temer que as gravações entregues à Justiça pelos irmãos Joesley e Wesley Batista caíram como uma bomba. Também no principal partido aliado do governo as delações caíram como uma bomba. Presidente do PSDB, Aécio Neves foi gravado pedindo R$ 2 milhões à JBS, o que resultou na prisão da irmã e de um primo do senador, que participaram da negociação para o recebimento da propina.

Relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Luiz Edson Fachin determinou o afastamento de Aécio de suas atividades no Senado, mas negou o pedido de prisão feito pelo Ministério Público Federal (MPF). Acuado pelas denúncias e por declarações de correligionários, à tarde o ex-governador de Minas Gerais divulgou nota em que anunciou o licenciamento da presidência do PSDB, indicando senador Tasso Jereissati (CE) para liderar o partido.

No Senado, Rede e PSOL apresentaram ao Conselho de Ética o pedido de cassação de Aécio. “Não existe condição alguma para que o senador continue exercendo o mandato, tanto é que o STF pediu o afastamento do senador”, afirmou o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

Alianças
Conforme se ampliava o constrangimento de Michel Temer diante dos questionamentos de opositores e da imprensa, ministros, parlamentares e partidos aliados passaram a pressionar o presidente por uma renúncia. Dentre os ministros, o primeiro a anunciar o desembarque ainda pela manhã foi o titular da pasta das Cidades, Bruno Araújo (PSDB-CE). Apesar da pressão de parte da base para que o partido deixasse o governo, no fim da tarde o partido emitiu nota em que garantiu a continuidade e pediu a permanência de Araújo e outros três ministros nos cargos que ocupam

Já o presidente nacional do PPS e ministro da Cultura, Roberto Freire (CE), pediu demissão logo após o pronunciamento de Temer negando a renúncia. No Senado, o líder do Democratas também não gostou do tom da manifestação presidencial e pediu ao Congresso que desse início à tramitação do impeachment. “O gesto que se esperava era a renúncia para minimizar e dar mais celeridade à resolução da crise. O presidente não nos dá outra solução que não dar início ao processo de afastamento”, declarou.

Pior impacto econômico desde 2008
Se nas últimas semanas o governo Temer lidava com algum otimismo diante de tímidos sinais de recuperação econômica, o abalo sofrido jogou isso por água abaixo. O dólar, que na quarta-feira fechou em R$ 3,13, disparou logo nas primeiras horas desta quinta e chegou a valer R$ 3,43, fechando o dia com uma alta de 7,61% e cotado em R$ 3,37.

Já a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) chegou a ter suas atividades interrompidas pela manhã, após uma queda de 10,47%. Desde outubro de 2008, ápice da crise econômica, essa queda brusca e uma paralisação dos negócios não ocorriam. No fim do dia, o Ibovespa se estabeleceu em -8,80%.

A delação explosiva
Donos do grupo JBS, maior produtora de carne do mundo e proprietária da Friboi, os irmãos Joesley e Wesley Batista entregaram aos procuradores da Lava Jato gravações em que Michel Temer autoriza aos proprietários da empresa o pagamento de R$ 500 mil ao ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e ao doleiro Lúcio Funaro, presos em Curitiba pela Operação Lava Jato. No material, o presidente diz ao empresário: “Tem que manter isso aí, viu?”. Segundo Joesley, o dinheiro era usado para comprar o silêncio de Cunha.

Já Aécio Neves recebeu R$ 2 milhões da JBS. O recurso foi pedido pelo próprio senador e recebido em quatro parcelas semanais pela sua irmã, Andrea Neves, e o primo, Frederico Pacheco de Medeiros. Toda a negociação foi registrada por Joesley Batista e entregue aos agentes da Lava Jato em acordo de delação premiada.
Os áudios e vídeos homologados pelo ministro Luiz Edson Fachin, do STF, tiveram seu sigilo quebrado nesta quinta no final do dia.

Se Temer cair, quem assume?
Em caso de renúncia ou afastamento de Michel Temer, quem assume a Presidência imediatamente é o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que será o responsável por convocar eleição indireta, com os 513 deputados e 81 senadores escolhendo o presidente que comandaria o país até 2018.

Para que ocorressem eleições diretas, com voto de toda a população, o Congresso Nacional deveria aprovar uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) alterando a legislação. Para isso, seria preciso a concordância de aprovação em dois turnos, tanto na Câmara quanto no Senado, com cada uma das casas tendo pelo menos dois terços dos votos favoráveis em cada votação.

A opinião dos partidos
O Diário Popular conversou com os presidentes dos principais partidos da cidade sobre qual a posição dos diretórios locais diante do atual cenário político. Confira:

NADISON HAX
presidente do diretório do PSDB

“Há uma indignação coletiva e defendemos que o senador Aécio Neves seja afastado do cargo e também da presidência nacional do PSDB, uma vez que ele era o representante daquilo que projetamos para o país. Acreditamos que o melhor para o país é a renúncia do presidente Temer. Defendemos que seja respeitada a Constituição para a escolha do novo representante, evitando qualquer quebra disso nesse momento gravíssimo que vive o país.”

LUIZ EDUARDO LONGARAY 
presidente do diretório do PMDB

“São acusações graves contra o presidente, mas temos que aguardar que venha à luz o conteúdo de todas estas gravações noticiadas pela imprensa. Sua fala foi convincente e é preciso aguardar o desenrolar. Entretanto, se for provado o envolvimento é fundamental o seu afastamento. Lamentamos que isso ocorra enquanto o Brasil dava mostras de recuperação e as reformas vinham sendo encaminhadas. Também não podemos esquecer que essa delação partiu de um empresário muito ligado ao PT e aos governos de Lula e Dilma.”

LUCIANO LIMA
presidente do diretório do PT

“A queda inevitável de Temer não dará desfecho à questão democrática e social do país, mas abre um momento de colocar em xeque a agenda do golpe feito pelos derrotados da última eleição presidencial. As reformas apresentadas para tirar direitos dos trabalhadores já não possuíam legitimidade popular e agora perderam a estabilidade política. O que continuará em aberto é a agenda do golpe. Essa só poderá ser definitivamente enterrada com a anulação do impeachment ou a imediata realização de eleições diretas para presidente.”


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