Violência

“É a banalização da vida”, avalia especialista

Ao contrário de 2015, quando a cidade registrou recorde no índice de homicídios devido ao tráfico de drogas, em 2017 as motivações têm sido diversas

15 de Julho de 2017 - 09h22 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Giulliane Viêgas
giulliane.viegas@diariopopular.com.br

Corpo coberto por um lençol na periferia de Pelotas registra mais um homicídio cometido na cidade em 2017 (Foto: Paulo Rossi - DP)

Corpo coberto por um lençol na periferia de Pelotas registra mais um homicídio cometido na cidade em 2017 (Foto: Paulo Rossi - DP)

Passava das 8hs de terça-feira (11) quando o corpo de Manoel Luiz Garcia foi encontrado por moradores da Colônia de Pescadores Z-3, zona rural de Pelotas.

O idoso de 65 anos foi morto a pauladas e o cadáver deixado pelos suspeitos em um campo, próximo a uma igreja da vila. Três dias antes, domingo, Bruno Santos da Silva, 22, foi encontrado morto por volta do meio-dia no campo do Sudeste, próximo à rua Pedro Machado Filho, na Ambrósio Perret. O corpo da travesti conhecida como Bruna apresentava sinais de agressão a pauladas, especialmente no rosto, mas, segundo a Polícia Civil e a Brigada Militar, ela foi alvo de disparo de arma de fogo.

Na quinta-feira passada, um homem ainda não identificado foi encontrado morto em um matagal, na Galateia, zona rural. O corpo tinha três marcas de tiros. Foi recolhido por servidores do Instituto Geral de Perícias (IGP) e encaminhado ao Instituto Médico Legal (IML) onde ficaria até o reconhecimento de algum familiar.

Levantamento do Diário Popular, com base nos homicídios cometidos em Pelotas desde o início do ano, aponta que a cada três dias uma família chora pela perda de um parente, vítima da violência que se espalha de maneira banalizada. Nos últimos dois anos a cidade parece viver em um estado de tensão insolúvel que domina as ruas e seus moradores.

Diferentemente de 2015, quando o município registrou 109 homicídios, a maioria praticados pela guerra orquestrada do tráfico de drogas, este ano o aumento é difuso, segundo o titular da Delegacia de Homicídios e Desaparecidos (DHD), Félix Rafanhim.

Desde o início do ano, 59 pessoas foram executadas na cidade, 55,2% a mais do que no mesmo período do ano passado, quando Pelotas registrou queda de 27,5% nos crimes em relação a 2015. Em todo o ano passado, 79 pessoas foram assassinadas.

O uso da arma de fogo ainda prevalece na prática dos crimes. Mortos a tiros representam de 80% a 85% das execuções em Pelotas, muito embora o uso de arma branca (faca, objetos contundentes ou contusos) tenha ocorrido de maneira mais frequente. Homens brancos com idades entre 18 e 35 anos ainda são a maioria das vítimas.

Das 59 vítimas, duas eram idosos com 65 anos, um deles era policial civil aposentado. Marcos Antônio Silva da Silva foi morto a tiros em janeiro quando chegava em sua residência. A Polícia Civil apurou que o comissário foi vítima de uma emboscada planejada por um cliente insatisfeito com o serviço prestado pelo agente aposentado que trabalhava como advogado.

Menores de idade representam 8,5% das vítimas. Adolescentes com idades entre 15 e 17 anos são cinco do total dos mortos. Entre as vítimas, está uma jovem de 17 que morreu em um acidente de moto, na avenida Fernando Osório. Victória Helwig Pereira estava na carona de uma motocicleta, quando o condutor, alcoolizado, perdeu o controle do veículo. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) chegou a ser acionado, mas a jovem já estava morta.

Além de Victória, outra mulher foi vítima da violência em Pelotas. Ana Janete Flores Nunes, 50, foi assassinada na casa do irmão pelo companheiro, um policial militar que cometeu suicídio após o crime. O feminicídio ocorreu em janeiro, na Travessa Treze, Navegantes II. Depois do bate-boca com a companheira, o PM Assis Dari de Souza Nunes, 59, teria então decidido sair da residência e ir embora. No entanto retornou e voltou a discutir com Ana Janete. O irmão da vítima teria ouvido ela dizer: “Louco, não!”. Em seguida dois tiros foram efetuados. Um deles acertou o olho da mulher que morreu em cima de uma cama. O policial militar lotado em Porto Alegre efetuou um disparo contra si na cabeça.

Em março, um duplo homicídio chocou o Getúlio Vargas, nas Três Vendas. Os corpos de Alex Solismar Vieira Machado, 39, e Carlos Alberto dos Santos, 54, estavam na residência deste último, na rua Três do loteamento. Eles foram localizados por uma vizinha que teria ido até o imóvel com a intenção de pegar um prato que teria ficado na casa de Carlos Alberto. Ao entrar no local, ela encontrou uma das vítimas no sofá e a outra no chão da sala. Ambos foram mortos a facadas.

O mesmo destino teve o filho de Carlos Alberto, catador de lixo e que há algum tempo ajudava o amigo Alex dividindo a residência. Vizinhos contam que, embora Santos fosse uma pessoa tranquila, ele teria ficado muito abalado depois da morte dofilho, um adolescente de 17 anos, assassinado a tiros na noite do dia 10 de janeiro deste ano. Gleisson Moreira dos Santos foi atingido por um tiro na região do abdômen, na avenida Leopoldo Brod, no loteamento Getúlio Vargas. Ele chegou a ser socorrido pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), mas morreu no hospital.

Bairros violentos
A violência nas Três Vendas assusta não só moradores. O bairro concentra 33,9% dos homicídios registrados este ano, segundo aponta levantamento do Diário Popular, com base nas informações da Delegacia de Homicídios e Desaparecidos. Dos 59 homicídios, 20 foram cometidos naquela região.

Depois das Três Vendas, o Areal, Zona Leste, é o segundo mais violento. Lá, 11 pessoas foram executadas. As mortes ocorreram no Vasco Pires, no Dunas, no Jardim Europa e na Bom Jesus. Logo em seguida o centro da cidade, com dez assassinatos, é a terceira região local com maiores índices de homicídios.
Fragata, Navegantes, Porto, Z-3, Zona Rural e Simões Lopes, juntos, contabilizam 18 homicídios, ou seja, 30,5% dos crimes ocorreram nesses bairros.

Resolução dos casos
A Delegacia de Homicídios e Desaparecidos de Pelotas aparece em um estudo da Polícia Civil como uma das Especializadas do Estado que mais solucionam casos, ficando à frente, inclusive, de DPs da capital, dadas as suas proporções.

Embora a estatística seja relacionada ao ano anterior da análise, o delegado Rafanhim garante que a equipe da DHD mantém ou pelo menos tenta manter a média de 80% de esclarecimento dos crimes. “Já temos inquéritos remetidos ao Judiciário de casos que ocorreram há poucas semanas. Bem como de crimes praticados no início do ano”, comentou.

Vidas banalizadas
Para a professora de Direito das universidades Federal e Católica, Ana Cláudia Lucas, os números revelam, de modo geral, a naturalização da violência e a banalização da vida onde, por exemplo, uma discussão em bar resulta em homicídio. O aumento no número dos assassinatos tem revelado que esse crescimento tem relação direta com a diminuição do efetivo policial. Em Pelotas está é uma realidade a se ter conta.

De modo mais particular, o crescimento do tráfico de drogas, as disputas por esse mercado, as vinganças e as ações passionais refletem no aumento das taxas de homicídio. “A potencialização dos efetivos policiais, a presença de um trabalho ostensivo e preventivo por parte da Polícia Militar, realizando, por exemplo, um controle mais intenso na circulação de armas em Pelotas, poderiam contribuir para uma redução do número de homicídios”, opinou.


Comentários


Diário Popular - Todos os direitos reservados