Saúde

Crise financeira coloca Pronto Atendimento em Traumatologia em risco

Provedor da Santa Casa de Pelotas admite a possibilidade de fechamento, a partir de agosto de 2018, caso o cenário não melhore até lá

11 de Agosto de 2017 - 07h42 Corrigir A + A -

Por: Michele Ferreira
michele@diariopopular.com.br 

Hospital tem um ano para acabar com o déficit financeiro do Pronto Atendimento (Foto: Infocenter DP)

Hospital tem um ano para acabar com o déficit financeiro do Pronto Atendimento (Foto: Infocenter DP)

O Pronto Atendimento em Traumatologia da Santa Casa de Misericórdia - referência ao serviço prestado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em Pelotas - corre o risco de fechar as portas à comunidade a partir de agosto de 2018. O alerta é do novo provedor, Lauro Ferreira de Melo. O hospital tem um ano para acabar com o déficit financeiro do PA, que até julho era de aproximadamente R$ 170 mil por mês; o equivalente a mais de 10% dos prejuízos acumulados com o SUS. É uma das metas fixadas para estancar as operações no vermelho.

Hoje, uma média de 40 casos de urgência e emergência passam, por dia, pelo Pronto Atendimento. Sem um cenário favorável, entretanto, não haveria como permanecer com a unidade em funcionamento. "Se até agosto de 2018 os benefícios não melhorarem, o Pronto Atendimento vai fechar. Recebemos incentivo, mas não tá cobrindo os custos", admite.

Ao conversar com o Diário Popular, na manhã desta quinta-feira (10), o provedor da Santa Casa criticou a defasagem dos valores pagos pelo SUS: "É uma tabela muito covarde aos hospitais filantrópicos, que está com seus valores congelados; alguns há 21 anos, outros há 14 anos". Para reverter o quadro, a nova gestão do hospital aposta em duas medidas: um contrato assinado há poucos dias, com outro grupo de médicos, e a realização de mais procedimentos de alta complexidade, que não representem prejuízos financeiros à instituição.
O fechamento da Residência Médica em Traumatologia, oficializado esta semana, é mais uma das consequências do cenário de crise (leia mais nesta página).

Foco nos imóveis
Um levantamento irá indicar quais dos 15 imóveis - 11 doados à Santa Casa - poderiam ser vendidos para gerar recursos ao hospital. A fase é de apuração de dados junto aos cartórios, já que alguns desses bens só poderiam ser locados, em respeito aos testamentos de quem os doou. Para qualquer decisão, todavia, o tema precisa passar por assembleia geral - esclarece o provedor.

Residência Médica chega ao fim
Está encerrada a Residência Médica em Traumatologia e Ortopedia na Santa Casa de Pelotas. Devem permanecer, até o final do ano, apenas os três profissionais que integram a primeira - e única - turma do curso. A dúvida é o quanto à ausência dos outros cinco residentes - três R1 e dois R2 - irá afetar os serviços prestados à comunidade.

Quem ficou na linha de frente do Pronto Atendimento em inúmeros plantões - movido pelo desejo de se tornar traumatologista - assegura: a população sentirá na pele a redução na equipe. Em determinados momentos, o risco seria de falta de médicos de prontidão no PA; garantem residentes.

Em dois documentos distribuídos à Comissão de Residência Médica (Coreme), em 12 de julho e em 2 de agosto, as queixas passavam por falta de material para realização de cirurgias, ausência de clínico geral para responder pela triagem dos pacientes - já que nem todos os casos teriam diagnóstico de lesão traumato-ortopédica - e descumprimento da carga horária prevista pelo Ministério da Educação (MEC).

"Estávamos lá para aprender e, muitas vezes, fomos largados sem preceptor (profissional responsável por conduzir e supervisionar os residentes). Não sabíamos o que fazer nem o que falar", desabafa um dos alunos da Residência. E destaca: a carga horária era exorbitante, bem acima do estabelecido pela legislação, que fixa um máximo de 24 horas de plantão semanal. Ao conceder entrevista ao Diário Popular, o residente também lamentou a falta de especialistas em coluna, quadril, mão, ombro e cotovelo e pé e tornozelo; um prejuízo ao processo de formação dos médicos.

A etapa a partir de agora, entretanto, será de busca de vaga para transferência dos residentes a outras instituições.

Posição da Provedoria
O provedor Lauro Ferreira de Melo assume que os residentes ocuparam a linha de frente no atendimento à população, supriram a ausência dos traumatologistas e ficaram, sim, muitas vezes sem a presença do preceptor; essencial ao ensino. Tão logo a denúncia chegou à nova direção do hospital, medidas teriam começado a ser tomadas.

Uma sindicância interna foi aberta para apurar os fatos, embora a equipe de médicos - sob o comando de uma empresa de Porto Alegre - tenha sido substituída no começo deste mês. O relatório final poderá chegar ao Conselho Regional de Medicina (Cremers) e ao Sindicato Médico (Simers), que já monitora a situação dos residentes.

A expectativa é de que o novo grupo de profissionais - embora menor - seja suficiente para suprir as escalas, mesmo sem os residentes de prontidão, como ocorria - garante o provedor. Desde, claro, que cumpram os horários.

Quanto à falta de material para as cirurgias eletivas, Melo também é objetivo: admite a dificuldade financeira para adquiri-los, mas faz questão de enfatizar que os procedimentos voltaram a ser realizados desde a última semana. E foi, justamente, este mesmo cenário de crise que contribuiu à tomada de decisão de fechamento da Residência Médica: "Qual é a prioridade do hospital hoje: é SUS ou é Residência? É SUS. Então, optamos por isso para o hospital poder se concentrar no problema da traumatologia SUS, com um fila enorme, que a Secretaria de Saúde tá tentando resolver". A estimativa é de que mais de mil pessoas aguardam por uma cirurgia eletiva hoje.

Saiba mais 
- O Pronto Atendimento em Traumatologia da Santa Casa, aberto 24 horas por dia, é a única porta de entrada para o serviço de traumatologia-ortopedia pelo SUS em Pelotas. Só os casos mais graves, de politraumatizados, são absorvidos pelo Pronto-Socorro.

- Desde 1º de agosto, uma equipe de oito médicos traumatologistas responde pelo PA. Com o novo contrato, entre salários dos profissionais e materiais, o custo para manter a estrutura é de cerca de R$ 250 mil por mês.

- Com o contrato anterior, firmado com 12 médicos, os custos chegavam a aproximadamente R$ 370 mil.

- Balanço financeiro indica que, até agora, o Pronto Atendimento representava em torno de R$ 170 mil de déficit mensal com o SUS ao hospital.

- Caso precisasse fechar as portas do PA, a Santa Casa de Misericórdia não deixaria de ter a retaguarda à traumatologia. Ao invés de ser referência a todo o sistema público de Pelotas, como funciona hoje, a estrutura seria usada apenas para os seus pacientes, devidamente encaminhados.


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