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Movimento que ocupa e habita as praças e os parques aos finais de semana deve ser encarado como benéfico para a sociedade, dizem especialistas

11 de Agosto de 2017 - 09h01 Corrigir A + A -
Coronel Pedro Osório conquistou os jovens nos últimos anos (Foto: Gabriel Huth - DP)

Coronel Pedro Osório conquistou os jovens nos últimos anos (Foto: Gabriel Huth - DP)

Quadrado é uma das áreas mais procuradas aos finais de semana (Foto: Gabriel Huth - DP)

Quadrado é uma das áreas mais procuradas aos finais de semana (Foto: Gabriel Huth - DP)

O final de semana serve como exemplo para uma prática cada vez mais comum em Pelotas: praças cheias de gente e locais públicos servindo ao seu verdadeiro propósito, de ser habitado pelas pessoas. O "veranico" de inverno, com temperaturas que ultrapassaram os 28ºC na tarde do último domingo de julho, convidou todo mundo para se sentar à grama sob a sombra de uma árvore, andar de bicicleta, aproveitar as horas de folga mais próximo da natureza ou ainda praticar algum tipo de esporte. Ao mesmo tempo que locais são constantemente frequentados por grandes públicos, a população reivindica melhores condições, como banheiros e segurança.

Traçando um paralelo entre os locais mais habitados e a razão para isto acontecer, a decisão para passar uma tarde no Parque Museu da Baronesa, por exemplo, envolve questões como segurança, estrutura, banheiros, espaço adequado para a prática de uma atividade ou esporte, opções de comida ou lanche, entre outros fatores. Neste sentido, a maior parte dos espaços de lazer carece de banheiros adequados e limpos, ou água quente para o chimarrão, atividades culturais e equipamentos para a prática de esportes. São fatores cruciais. Porém, como explicam os professores integrantes do Laboratório de Urbanismo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (Faurb) da UFPel, existem também outros fatores que levam as pessoas à rua. Reunidos em volta de uma mesa, Eduardo Rocha e Beatriz Escudeiro discorrem sobre a ativação de lugares por parte da população.

"As pessoas precisam se sentir convidadas a entrar numa praça e sentar", manifesta Rocha. Neste sentido, entram fatores como organização, limpeza, drenagem e a sensação de segurança e tranquilidade. Ao mesmo tempo, o espaço público precisa ser democrático, livre para diferentes manifestações, e que não seja "engessado", como definem os pesquisadores de urbanismo, permitindo intervenções da comunidade que utiliza os espaços.

Eduardo traça um paralelo entre duas áreas da praça Coronel Pedro Osório que parecem territórios distintos. Uma, entre a estátua de Pedro Osório e o caminho que dá acesso ao Mercado Central, que recentemente sofreu intervenções e foram criados passeios entre as árvores. O local é pouco habitado. Já o gramado em frente ao Grande Hotel, às costas da estátua de Simões Lopes Neto, oferece, sobretudo, uma área verde e algumas sombras. Neste gramado, especificamente aos domingos, fica difícil encontrar um espaço para se acomodar. Um termo bastante utilizado por Eduardo refere-se ao espaço público como um ponto de encontro - de pessoas, ideias, modos de vida -, o que acaba "ativando" os lugares, como se refere ao movimento. "As pessoas devem encarar este movimento como benéfico para toda a sociedade", opina Eduardo.

Ao ar e livre
O que atrai o público ao parque da Baronesa, segundo os próprios frequentadores, são os extensos gramados, os caminhos que podem ser percorridos a pé ou de bicicleta nas sombras dos gigantes eucaliptos, lagos recentemente revitalizados e a tranquilidade transmitida pela natureza. Em alguns locais do parque há calmaria e um homem até cochilava no último dia 29. Bancos distribuídos em ilhas de concreto contam com lixeiras diferentes para cada tipo de resíduo. Sentado próximo à academia ao ar livre, o casal Vinícius, 43, e Gisele Granada, 40, tomava mate e conversava com outro casal de amigos. O ponto para o passeio surgiu pela possibilidade dos filhos terem espaço para brincar na grama. "A gente não tem muito o costume, mas o parque está bem melhor, só não vimos nenhum segurança, nenhum guarda, a não ser a que fica dentro do museu", observou Vinícius. O museu recebe, nos finais de semana, média de 400 visitantes, conforme Marcelo Madail, conservador e restaurador do museu. No lado externo, milhares de pessoas frequentam o parque.

Oito colegas de Comunicação Visual do IFSul, entre 16 e 17 anos, conversam sentados na grama verde da praça Coronel Pedro Osório. Todos nascidos e criados em Pelotas. Luís Bento, 17, foi categórico: "Hoje eu não sinto o que eu sentia quando não tinha ninguém aqui". Ele se referia à segurança de estar num lugar habitado e com bastante gente. A sensação de segurança é maior à medida que se está cercado por outras pessoas, explica Beatriz Escudeiro, do Laboratório de Urbanismo. "As pessoas sentem-se mais seguras estando aos olhos dos outros muito mais do que com a presença policial", compara a pesquisadora argentina.

O movimento do sábado se misturava com o Mercado das Pulgas, no largo Edmar Fetter. Eduardo Couto, 16, também sentado no mesmo grupo, disse que costuma ir durante a semana à tarde e ficar na grama com amigos. "Há pouco tempo, quem frequentava praças e ficava sentado no chão era muito taxado, de maconheiro, de vagabundo. Hoje não é mais assim", opina. Questionados por que não estavam no shopping, como é comum entre outros jovens da mesma idade, os estudantes riram. "Porque estamos sem dinheiro", um brincou. Outro foi mais reflexivo: "Não tem comparação, sentar na grama, perto das árvores, ao ar livre", comparou Bento.

Quando o assunto rumou para o que faltava em termos de estruturas e atividades que estimulem as pessoas a saírem de casa e habitarem os lugares, os jovens falaram sobre segurança e atividades culturais. Couto disse que já havia sido assaltado três vezes, tendo perdido o celular em todas as ocasiões. Uma colega cobrou que as atividades se descentralizem e percorram mais os bairros e as localidades afastadas do Centro. Dos oito estudantes, apenas Couto já havia usado o banheiro da praça, classificado por ele como "muito sujo". Entretanto, eles alegaram que é a única praça que tem eventos, shows. "Aqui é habitado por causa disso, sempre tem alguma coisa e as pessoas vão para estes lugares", acredita Luís.

Mau estado
Para acessar o Quadrado, na região das Doquinhas, é preciso vencer grandes buracos que preenchem toda a rua Alberto Rosa, entre os antigos trilhos de trem e o canal São Gonçalo. Um projeto de revitalização da área já foi realizado pela Sagres, empresa que opera o Terminal de Toras no Porto de Pelotas. Uma quadra de futebol de areia e brinquedos para crianças foram reformados, entretanto, os frequentadores pedem mais segurança e melhora na rua que dá acesso ao local.

A professora Suzana Cardoso, 55, tomava mate com o filho, amigos e a cadela Luna. Todo final de semana, conta Suzana, é comum pegar o carro e ir até algum lugar, seja Laranjal ou avenida Dom Joaquim. Moradora do Porto, ela resolveu ir a pé até o Quadrado, porém percebeu os grandes buracos na rua Alberto Rosa. O local dispõe até construções que já serviram como banheiro, o que não acontece mais. O lugar não possui projetos da Secretaria de Qualidade Ambiental (SQA). Mesmo com estas condições, é bastante frequentado por jovens, senhores que pescam no canal e por famílias em rodas de mate.

Mais gente, mais rendimento
Com uma crepeira instalada à sombra de um pinheiro, Vanessa Matias, 27, está no parque todos os finais de semana posicionada no caminho que dá acesso ao museu. Vendendo crepes com bordas recheadas, tira uma renda extra trabalhando todo sábado e domingo. "Vendo 40 ou mais por dia", conta. Com esta estimativa de vendas, chega a faturar de R$ 280,00 a R$ 300,00. Na praça Coronel Pedro Osório, dona Edolides da Silva diz que é "pipoqueira com muito orgulho". Com o trabalho, educou dois filhos e paga mensalmente aluguel, luz, internet, água e a assinatura do Jornal, onde consulta a agenda de eventos para estacionar seu carrinho de pipocas e bebidas durante a semana. Nos primeiros dias do mês, Edolides percebe que as pessoas compram mais. O faturamento chega a R$ 400,00 em alguns domingos. Outras cinco bancas com comida e bebidas estavam estacionadas nos passeios da praça. "Minha filha faz faculdade de Nutrição, na UFPel, e meu filho faz Mecânica no IF, todas as despesas eu pago com pipoca", afirma.

Futuro
Responsável pelas praças e os parques de Pelotas, a Secretaria de Qualidade Ambiental (SQA), Felipe Perez (PSD), diz não ter projetos para o Quadrado, para o parque Dom Antônio Zattera e para a praça Coronel Pedro Osório. "O Antônio Zattera foi revitalizado há cinco anos e a Pedro Osório tem um projeto com verbas do Iphan e quem está tratando disso é a Secretaria de Cultura", explica. Já o Parque Museu da Baronesa, adianta que para o próximo ano está prevista a segunda etapa da revitalização. "Serão construídas quadras poliesportivas." Outras três praças devem ser revitalizadas em breve: a Modelo, outra na esquina da rua Gonçalves Chaves com a avenida Juscelino Kubitschek e outra no Obelisco.


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