Futuro

Um longo caminho até o Egito

Atleta do projeto Quem Luta Não Briga foi ao país participar do Campeonato Mundial de Cadetes

13 de Setembro de 2017 - 11h43 Corrigir A + A -
Amanda teve o primeiro contato com o projeto em 2011 (Foto: Jô Folha - DP)

Amanda teve o primeiro contato com o projeto em 2011 (Foto: Jô Folha - DP)

Treze anos. Esta é a idade de Amanda Caruccio, taekwondista do projeto Quem Luta Não Briga que disputou o Campeonato Mundial de Cadetes no Egito. Por falta de verba, os pais e o instrutor da menina não puderam acompanhá-la na viagem. Por isso, a primeira parte do percurso, de Porto Alegre até São Paulo, ela fez sozinha. Já em solo egípcio, além das adversárias no tatame, precisou enfrentar a língua estrangeira e a conversão de moedas.

Lutadora desde os sete anos, Amanda chegou à faixa preta há três. Sua entrada para a arte marcial foi quase sem querer. Em 2011 acompanhava o irmão nos treinos do projeto na Associação dos Moradores da Cohab Tablada, de Pelotas, quando foi convidada pela mestre a integrar-se ao grupo. Porém, era a única menina da turma e, envergonhada, desistiu. Tempo depois, convidou algumas amigas para treinar junto. Elas desistiram, mas Amanda nunca mais saiu do esporte nem da equipe do Quem Luta Não Briga. “Se não fosse o projeto, eu nunca chegaria onde cheguei”, afirma.

Até conquistar a vaga no campeonato, a adolescente percorreu um longo caminho, todo acompanhado pelos mestres do projeto. Depois de conquistar espaço na Federação Gaúcha de Taekwondo, ficou classificada como segunda reserva no ranking nacional. Ela não esperava ser chamada para disputar uma competição internacional, pois o lugar geralmente é dado à titular da categoria. Porém, o Campeonato Pan-americano Cadete e Juvenil estava ocorrendo quase simultaneamente ao mundial. Como não poderia comparecer aos dois, a atleta titular da categoria de Amanda optou pelo Pan-americano. A outra vaga foi destinada à pelotense.

A notícia chegou em junho, dois meses antes da competição, que ocorreu de 24 a 27 de agosto. Era hora de enfrentar outra batalha: conseguir R$ 24 mil, valor necessário para cobrir os gastos da viagem da menina e de um acompanhante - o pai ou o treinador. Patrocínios, rifas, pedágios. As tentativas para juntar o montante foram muitas, mas não suficientes. O valor arrecadado com muito esforço pagou apenas as despesas de Amanda. Em outros tempos, a prefeitura teria coberto todos os gastos da atleta, estudante no Colégio Municipal Pelotense. O corte de gastos, no entanto, permitiu apenas o custeio do transporte.

No campeonato, perdeu a primeira luta para uma competidora da Tunísia. Porém, os ganhos com experiência valeram muito mais. Em sua primeira viagem internacional, lidou com a conversão do dinheiro em dólar para libras egípcias. O pai, Giovani Caruccio, ensinou a filha a transformar o valor em libras para reais. “Assim ela sabia se estava pagando caro ou barato”, explica. O inglês foi outro desafio. Apesar de já ter um conhecimento básico do idioma, conta que voltou para o Brasil com muito mais domínio da língua, conquistado em dez dias sofrendo com a comunicação.

Na escola, o rendimento precisa ser tão bom quanto no tatame. Amanda conta que o treinador Rossano Diniz cobra dos atletas boas notas. Caso o boletim tenha resultados insuficientes, o taekwondista fica proibido de participar de competições. As notas da adolescente se mantêm altas, mesmo com o grande número de campeonatos disputados e os três treinos por semana. Segundo ela, o projeto a tornou mais responsável em todas as esferas da vida.

Contra a violência
O Quem Luta Não Briga nasceu com a intenção de incentivar a prática esportiva entre os jovens a fim de evitar o aumento da violência. Os treinos são feitos em seis núcleos na cidade: no Colégio Municipal Pelotense, na Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) Bernardo de Souza, na Esef/UFPel, no ginásio da Associação Atlética Banco do Brasil (AABB), no Instituto de Menores e na Associação dos Moradores da Cohab Tablada. Na Emei há um diferencial: os alunos têm entre quatro e seis anos de idade, enquanto nos outros centros a idade mínima para participar é sete anos. A iniciativa é uma parceria entre a Secretaria Municipal de Educação e Desporto (Smed), a Escola Superior de Educação Física da Universidade Federal de Pelotas (Esef/UFPel) e do Instituto de Menores Dom Antônio Zattera.


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