Problema crônico

Água invade casas no Fragata

Chuva caiu em grande intensidade num curto período de tempo na tarde desta quarta-feira

13 de Setembro de 2017 - 18h51 Corrigir A + A -
Veridiana cuida para que filha não pegue doenças levadas pelos alagamentos (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Veridiana cuida para que filha não pegue doenças levadas pelos alagamentos (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Na rua Carlos Giacobonne, água chegou na altura dos joelhos (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Na rua Carlos Giacobonne, água chegou na altura dos joelhos (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Dias de chuva, trânsito caótico. Tradicionalmente, após chuvas como a desta quarta-feira (13), quando foram registrados cerca de 60 milímetros em Pelotas até o meio da tarde, o centro convive com alagamentos que atrapalham a passagem de veículos e pedestres. Moradores de áreas afastadas convivem com enchentes que invadem as casas, enquanto o Sanep trabalha no desentupimento de bueiros e troca de tubulações para tentar solucionar os problemas. Para hoje e amanhã, o Centro de Pesquisas e Previsões Meteorológicas (CPPMet) alerta: a previsão é de possibilidade de novos temporais, com a possibilidade, mais uma vez, da água correr pelo centro da cidade.

Porém, o espanto está nos olhos de quem vive nos bairros. Na Gotuzzo, bairro Fragata, alguns minutos bastam para que casas sejam invadidas pela água. Antes, no cruzamento das ruas Francisco Ribas e Carlos Giacobonne, uma caminhonete tem o motor afogado e para no meio da via, cercada pelo alagamento que une a rua às calçadas e valetas. Há anos convivendo com este problema, moradores buscam soluções paliativas, enquanto reclamam que o poder público não acena com uma proposta definitiva para contornar a situação.

Na rua Paulo Zanotta, que corta a Gotuzzo, moradores se queixam dos constantes alagamentos. A prefeitura é acionada, limpa bueiros, coloca bocas de lobo, ergue as ruas, mas nada parece solucionar o problema. Dias de chuva, dias de transtornos. João do Mato, figura conhecida na região, reclama que entrou há mais de ano com pedido no Sanep para a troca de tubulação da via. Ele argumenta que os canos são de pouca vazão e assim, invariavelmente, a rua é tomada pela água. "Até a Avenida Jorge Halal a tubulação é nova e comporta a vazão. De lá para cá há canos quebrados e o escoamento é insuficiente". Rua do transporte coletivo, a água tapa tudo e é espalhada após a passagem de cada veículo.

No entanto, o caso mais crítico mesmo é na Travessa 912. Veridiana Ferreira de Oliveira, desempregada, mora na casa número 80 há quatro anos, com o marido e a filha de 8 anos. Desde que se mudou para lá, convive com água dentro de casa a cada chuva mais forte, assim como seus vizinhos. Reformas foram feitas, piso erguido em oito centímetros, bueiro trocado, mas nada parece solucionar. "Reclamo com a prefeitura, quando eu ligo eles já até falam 'lá vem a mulher do alagamento'. Quando eu chamo muito a atenção eles vêm aqui e desentopem bueiros e valetas, mas é só chover de novo que a água volta toda. O Sanep diz que a rua não é responsabilidade deles, porque não é asfaltada", desbafa.

Na casa de Veridiana a água entra pela garagem, invade o pátio e, dependendo da quantidade, vai até a sala, cozinha, os dois quartos e o banheiro do imóvel, que estão 8 centímetros acima. A dona de casa é obrigada a colocar os eletrodomésticos em cima da cama e da mesa, enquanto cuida para que a filha não pise na água e não seja alvo dos carrapatos trazidos pela chuva. Sem solução apresentada pelo poder público, ela procurou um mestre de obras. Foi aconselhada a trocar todo o encamanento da casa, em uma obra que custaria, de saída, R$ 2 mil. Valor impossível de ser pago pelo marido, assistente de higienização, única fonte de renda do lar. "Uns anos atrás a prefeitura aconselhou que todos aqui da rua trocassem o bueiro. Fizemos isso e não adiantou nada".

A sensação é de impotência. Veridiana conta que já pensou em organizar protestos na rua Paulo Zanotta, mas vizinhos a desencorajaram. Ela também já foi a audiências públicas na antiga gestão municipal e conversa chuva após chuva com técnicos do Sanep e da prefeitura. A resposta é sempre a mesma. "Eles dizem que tem que desentupir bueiro não sei onde, mas o problema nunca é resolvido". Só neste mês, a conta de água do imóvel passou de R$ 100,00 - R$ 20,00 taxados como "serviços" pelo Sanep.

Outro ponto crítico no Fragata é o cruzamento das ruas Francisco Ribas e Carlos Giacobom. Crianças em bicicletas, cachorros, pedestres e uma caminhonete parada, todos em meio à água, que chega a uma altura de cerca de 50 centímetros. Este foi o cenário quando a reportagem chegou ao local, que também é passagem do transporte coletivo. Jaquelina Jansen Borges, 45 anos, mora desde sempre na Francisco Ribas e diz que o problema é histórico, mas vem piorando nos últimos anos, devido a maior urbanização no local. Ela tira as botas de couro para atravessar a rua, com a água na altura dos joelhos. Donos de uma oficina na região, que avaliam a caminhonete com o motor afogado no meio da rua, brincam com Jaquelina "não precisamos ir até a praia, ela vem até nós". Segundo moradores do local, há mais de 13 anos não é feita a limpeza nas valetas da volta.

Sanep responde
O Sanep argumenta que a chuva de ontem foi muito forte em um intervalo curto de tempo. Sendo Pelotas uma cidade plana e com com diques na volta, a água acaba acumulando antes de escoar. Segundo o Superintendente Industrial da autarquia, Jonas Silveira, a situação nos canais e nas casas de bomba está normal, e por isso não há preocupação. Sobre o pedido para troca de tubulação na Paulo Zanotta, ele afirmou não ter conhecimento. Na Giacobonne, o problema é em parte pela urbanização do local nos últimos anos. O Sanep projeta a instalação de uma draga para a limpeza do canal que passa pela rua, já que a área é de preservação ambiental e aterramento e instalação de diques são impossibilidades. No caso de Veridiana, a autarquia responde que a conta é em relação à água e serviços não podem ser feitos, de fato, porque são de responsabilidade da prefeitura. No entanto, não descarta uma ajuda para que o caso seja solucionado.

Chuvas na cidade
Entre as 11h30 e as 13h de ontem, a chuva intensa causou alagamentos pontuais em vários pontos da cidade. A Avenida Ferreira Viana próxima ao Foro foi invadida pela água. Situação semelhante na Almirante Barroso, na Padre Felício, Marechal Deodoro, Rafael Pinto Bandeira e em outras ruas do Centro. No Fragata, além da Gotuzzo e da Vila dos Toco, casos de alagamento foram registrados também na Guabiroba.

Até o meio da tarde desta quarta-feira, o pluviômetro da Embrapa marcou 57,8 mm de precipitação. Para a quinta-feira, o Cppmet alerta que os números podem ser semelhantes. Na sexta e no sábado, a previsão é de tempo nublado, com períodos de chuva, mas em menor quantidade.


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