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Pacto Pela Paz aponta sinais positivos

Dados dos primeiros dois meses do programa mostram redução em quase todos os crimes e dificuldade em combater homicídios

10 de Outubro de 2017 - 19h39 Corrigir A + A -

Por: Vinicius Peraça
vinicius.peraca@diariopopular.com.br 

Primeiros resultados do Pacto Pelotas pela Paz foram apresentados nesta terça-feira pela prefeitura (Foto: Jô Folha - DP)

Primeiros resultados do Pacto Pelotas pela Paz foram apresentados nesta terça-feira pela prefeitura (Foto: Jô Folha - DP)

O período ainda é curto para afirmar que o Pacto Pelotas Pela Paz é um caso de sucesso no combate à violência. No entanto, a prefeitura não esconde a animação diante do resultado dos primeiros dois meses do programa. De acordo com o Observatório Municipal de Segurança Pública, houve uma redução de 22,9% no total de crimes praticados na cidade desde o começo de agosto. Apesar disso, um índice ainda assusta: os homicídios continuam em alta e o mês de setembro registrou a pior marca no ano, com 14 vítimas.

Em entrevista coletiva na tarde desta terça-feira (10) na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a prefeita Paula Mascarenhas (PSDB) reconheceu a dificuldade em combater as mortes violentas na cidade, mas ressaltou que há um esforço para que os resultados apareçam no médio prazo. Enquanto em 2016 foram registrados 56 assassinatos entre os meses de janeiro e setembro, este ano o número chegou a 91. "Temos consciência de que 2017 provavelmente será um dos anos mais violentos. Mas acreditamos que, assim como outras cidades pelo mundo conseguiram, Pelotas também irá reduzir os homicídios. Nosso propósito é reduzir em pelo menos 50% em dez anos apostando muito na prevenção", disse.

Se a frustração pelo crescente número de vítimas não foi escondida pela prefeita e representantes de órgãos de segurança, por outro lado a avaliação geral é de que o Pacto Pelotas Pela Paz dá bons indicativos em seu eixo voltado a policiamento e justiça. Para o subcomandante do 4º Batalhão de Polícia Militar (BPM), o resultado no combate a furtos e roubos é considerado histórico. "Tivemos recentemente um reforço de 14 policiais e isso, somado ao trabalho integrado com Guarda Municipal, agentes de trânsito e outros órgãos municipais tem garantido mais tranquilidade à população", avaliou o major Marcio André Facin.

Em comparação a julho, mês anterior ao início do programa, houve queda nos roubos a pedestres (33%), residências (45%), comércio (36%) e veículos (41%). Crimes considerados pelo Gabinete de Gestão Integrada Municipal (GGI-M) os que mais causam sensação de insegurança na população.

Dentre todos os indicadores de criminalidade avaliados, o que apresentou maior crescimento percentual em comparação ao período que antecedeu as ações do Pacto Pelotas Pela Paz foi o de roubos no transporte público. Foram oito assaltos registrados em julho contra 18 em agosto e 19 em setembro. Um aumento de 137%.

Ainda longe dos bairros
Desde que foi lançado, o programa tem sido marcado por uma sequência de operações, blitze, revistas a veículos e pessoas, sobretudo durante as madrugadas e em locais de maior movimento. Foram 2,3 mil pessoas abordadas em 21 ações. Apesar disso, nos bairros prevalece a sensação de que o programa ainda não existe.

Líder comunitário no loteamento Getúlio Vargas, onde há pouco mais de uma semana duas pessoas foram baleadas após uma intensa troca de tiros durante a madrugada, Carlos Souto Batista, 43, conta que os moradores não percebem os reflexos do Pacto. "Continuamos com segurança nenhuma. Saímos preocupados para trabalhar, voltamos para casa preocupados. Até a escola teve que parar por quase duas semanas com medo da violência", reclama. Realidade que, alerta, não é diferente de outros bairros. "É assim em qualquer outro. Não vemos a polícia e quando chamamos leva mais de uma hora para sermos atendidos."

Três perguntas para
Luiz Antônio Bogo Chies, sociólogo, professor da Universidade Católica de Pelotas

Diário Popular: Pelotas viveu um aumento de violência nos últimos anos e agora aposta no Pacto Pela Paz como forma de enfrentar e reduzir a criminalidade, destacando resultados práticos na área da segurança pública. O que o senhor acha deste tipo de ação?

Luiz Antônio Bogo: É preciso destacar que não é de hoje a existência de uma tendência dos municípios de se envolverem com a segurança pública por um viés multisetorial. Isso é importante porque acaba por contribuir com as decisões policiais e dá capacidade de atacar em frentes mais próximas às administrações, como via programas sociais. É algo que tem dado resultado onde vem sendo adotado e pode, sim, funcionar muito bem em Pelotas. Só não se pode esperar resultados do dia para a noite, seria utópico.

DP: Mesmo mostrando alguns avanços imediatos, o município se vê diante de uma escalada no índice de homicídios que não tem conseguido reverter. Qual é a grande dificuldade em enfrentar este tema nos últimos anos?

LAB: Pelotas é uma cidade de grande porte e bastante vulnerável do ponto de vista econômico. Aqui tivemos há pouco tempo certo crescimento impulsionado por políticas públicas na região, como o Polo Naval, por exemplo. E agora há uma recessão. Isso afeta e, em um ambiente como o nosso, a desigualdade se potencializa. O aumento dos homicídios tem muito a ver com isso. Claro que não podemos esquecer das disputas envolvendo o tráfico de drogas. Porém, se os gestores continuarem a investir tanto no combate ao crime quanto na prevenção, poderemos enxergar um novo rumo.

DP: Uma das apostas da prefeitura e dos órgãos de segurança é no engajamento da população no Pacto Pela Paz. Porém, até o momento as principais ações têm sido voltadas a ações ostensivas, que nem sempre geram simpatia, especialmente de quem é abordado. Como evitar uma reação negativa?

LAB: É um risco que se corre com políticas como essa: como conseguir não descuidar das atividades policiais e intensificá-las sem criar uma resistência? É preciso gerar equilíbrio entre policiamento e prevenção, outras ações sociais. Mas a população também precisa entender que este é um momento de desencadeamento de uma virada de cenário. O fundamental é o cuidado para que o programa não reforce um conceito de ação truculenta.

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