Religião

300 anos de fé em Nossa Senhora Aparecida

Em outubro de 1717 três pescadores encontravam a imagem da santa que mais tarde se tornou Padroeira do Brasil

12 de Outubro de 2017 - 07h50 Corrigir A + A -
Paróquia no Simões Lopes tem programação alusiva à data (Foto: Heitor Araujo - DP)

Paróquia no Simões Lopes tem programação alusiva à data (Foto: Heitor Araujo - DP)

Volta da visão: Maria atribui sua cura a um milagre da santa (Foto: Heitor Araujo - DP)

Volta da visão: Maria atribui sua cura a um milagre da santa (Foto: Heitor Araujo - DP)

Imagem da santa que se tornou a padroeira do Brasil foi encontrada em outubro de 1717 por três pescadores (Foto: Heitor Araujo - DP)

Imagem da santa que se tornou a padroeira do Brasil foi encontrada em outubro de 1717 por três pescadores (Foto: Heitor Araujo - DP)

Pessoas que devotam suas orações, pensamentos e atitudes pela fé em Nossa Senhora Aparecida têm inúmeras razões para comemorar. Em outubro completam-se 300 anos em que pescadores encontraram a imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida no rio Paraíba, em São Paulo. O achado deu início a uma história de religiosidade que, mais tarde, estabeleceria a santa como Padroeira do Brasil. Os fiéis de Pelotas devem se concentrar na Paróquia Nossa Senhora Aparecida, no Simões Lopes, em busca de renovação da fé.

São 140 mil católicos em Pelotas, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dos 344 mil habitantes. E parte desse número deve estar presente na paróquia Nossa Senhora Aparecida nesta quinta-feira (12), Dia da Padroeira - data máxima para os devotos. Localizada na avenida Brasil, 334 - a única paróquia de Aparecida entre Pelotas, Rio Grande e Bagé - é palco de atividades desde o dia 3, início da novena, até a procissão que iluminará as ruas a partir das 19h.

A reportagem do Diário Popular se reuniu com a pessoas tradicionais da paróquia: quatro devotos na casa dos 70 anos, todos católicos desde a infância, moradores do Simões Lopes que frequentam a igreja diariamente. Honório Parmigiani Caldeira, 77, resume a data assim: "Comemorar os 300 anos é uma benção". Eles recordam bem a história dos pescadores que originou a devoção à Aparecida no Brasil. "Eram três pescadores. Primeiro acharam o corpo, depois a cabeça da imagem", explica. Domingos Garcia, Felipe Pedroso e João Alves jogaram as redes no rio Paraíba, em São Paulo, com o objetivo de pescar o maior número possível de peixes para recepção de um novo governador. Foram horas sem conseguir nada, até que encontraram a imagem de barro decapitada. O resgate da escultura trouxe às águas milhares de peixes, salvando a pescaria.

"A realidade do povo que vivia aquela época é que ou eles davam o peixe, ou morriam. Nossa Senhora vem para dar esse socorro para aqueles que precisavam", completa Lupi Scheer dos Santos, coordenador da paróquia. Décadas depois, a escultura negra se tornaria um dos símbolos do país, ganhando do papa italiano Pio XI em 1929 o título de Padroeira do Brasil. Lupi mostra a réplica da santa, colocada no centro da paróquia. A peça veio de Aparecida, em São Paulo, produzida e abençoada pela Basílica Nacional de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Construída em 1955, possui 72 mil metros quadrados, a segunda maior depois da Basílica de São Pedro, no Vaticano.

Cura atribuída a um milagre
Em 2017, Maria dos Anjos Lazzarin, 51, secretária da paróquia de Pelotas, esteve lá para agradecer. Ela começou a ficar com a visão turva em setembro de 2016. Achou que era conjuntivite. Fez tratamento com antibiótico e nenhuma melhora. Foi no oftalmologista, fez vários exames - nenhum que indicasse o que ocasionou a doença, uma inflamação no nervo óptico. Em três dias já não enxergava mais nada.

E ficou assim por um mês, até que a visão foi voltando aos poucos. O tratamento com remédios seguiu até maio. "Foi um período muito difícil. O neurologista disse na minha última consulta que achava que eu não ia mais enxergar", relembra. Hoje, Maria já não guarda mais nenhum sinal da doença. Para superar o susto foi preciso seguir a receita: "Muita oração e bom humor. Não cheguei a entrar em crise. Se chorar fosse tirar a inflamação...", reflete.

Ela acredita ter recebido uma graça de Nossa Senhora, santa que a acompanha na rotina de trabalho. "O pessoal da paróquia, a benção dos padres. Foi essencial. Sempre fui católica. Depois de passar pela doença a fé ficou maior. O medicamento foi forte, mas na situação que eu estava só muita oração mesmo", pensa.

Outro exemplo de devoção vem da diretora do Diário Popular, Virginia Fetter. Não era devota da santa até passar por um grave acidente. Em 1995, quando atuava como vereadora de Pelotas, estava em viagem ao lado de colegas parlamentares e da Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL) para Novo Hamburgo, buscando implementar um projeto de estacionamento rotativo. Era noite quando o motor-home em que ocupava bateu em um caminhão enquanto percorria a estrada em direção ao município. "Na hora da batida fiquei sem visão. Naquela escuridão que eu estava a medalhinha de Nossa Senhora girava comigo", conta, referindo-se a um pingente de Nossa Senhora Aparecida adquirido em visita à Basílica e que carregava durante o ocorrido. "Me passou a certeza de que ela estava comigo. Aquilo me manteve viva", diz.

O impacto do acidente foi tão forte que, horas mais tarde, já na Santa Casa de Pelotas, os médicos acreditavam que não iria sobreviver. A fé, então, foi a força necessária para superar o trauma e passar pelo processo de recuperação. "Aflorou aquela fé de uma forma tão intensa... Até hoje me lembro e me dá uma força." Depois, em agradecimento à benção da santa, organizou uma excursão para visitar novamente o Santuário.

Onde pulsa o coração católico do Brasil
Devido ao tricentenário, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil também instituiu 2017 como Ano Mariano. Para o vigário geral da arquidiocese de Pelotas, Luiz Amarildo Boari, estabelecer o Ano Mariano é uma forma de frisar a data em que de dois pedaços de terracota surgiu um verdadeiro fenômeno de fé. "O papa João Paulo II fala que Aparecida é onde pulsa o coração católico do Brasil. É o coração da expressão da religiosidade popular", diz. Por isso, a diocese está canalizando todas as celebrações para a paróquia da santa na cidade.

Capaz de abrigar 45 mil pessoas, o Santuário em São Paulo também deve receber pelotenses amanhã: uma das agências de turismo da cidade levará os fiéis de ônibus para o Santuário Nacional. De acordo com as empresas, a maioria dos devotos prefere pacotes com viagem aérea a partir de Porto Alegre. A Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero) estima que 2 milhões de viajantes passem pelos 59 aeroportos da rede devido ao feriado.

Programação dia 12
9h - Oração das laudes
9h30min - Récita das 300 Ave-Marias
18h - Oração do rosário
19h - Santa missa e procissão luminosa pelo bairro Simões Lopes, guiada pelo arcebispo Dom Jacinto Bergmann


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