Esperança

Preso da Perg lança obra na Feira do livro de PoA

Publicação é um conjunto de poesias feitas por apenados de diversas casas prisionais do RS

12 de Novembro de 2017 - 12h00 Corrigir A + A -

Por: Giulliane Viêgas
giulliane.viegas@diariopopular.com.br

“Descobri então como são úmidas e gélidas as paredes do fundo do poço e que só existe luz lá no fundo se olharmos para cima, ainda assim a luz é turva.” O verso faz parte da poesia escrita por um preso da Penitenciária Estadual de Rio Grande (Perg). O material é um dos selecionados pela Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe) a integrar o livro Vozes de um tempo, que será lançado na próxima quinta-feira,16, na Feira do Livro de Porto Alegre. J.A. é o único apenado da Região Sul a participar da obra composta por 130 poesias feitas por 112 detentos de 33 casas prisionais do Estado.

O fundo do poço expressa um momento em que o preso de 54 anos viveu antes de participar do programa de educação prisional da Perg. Recluso na penitenciária desde 2011 por tráfico de drogas, J.A. se via sem perspectivas. “Ele estava revoltado com tudo e vimos que poderíamos ajudá-lo incentivando a passar para o papel o que sentia”, disse a assistente social da Perg, Beatriz Reis, que acompanhou todo o processo de mudança do apenado. Depois de ingressar no projeto, há três anos, progrediu de regime - iniciou no fechado e agora cumpre pena no aberto. “Ele é um exemplo de que, com força de vontade, conseguimos seguir em frente”, comentou Beatriz. J.A. foi preso por tráfico de drogas após a polícia localizá-las na obra em que trabalhava. Ele garante que o material não era dele.

Seis anos depois de entrar para o cárcere, se prepara - ansioso - para a sessão de autógrafos que ocorrerá na Tenda da Pasárgada, em frente ao Memorial do RS. Ele é um dos sete apenados que receberam autorização da Vara de Execuções Criminais (VEC) para participar do evento. “Ele vai ir de ônibus e colegas da Susepe vão esperar ele na rodoviária. Não há necessidade de ser escoltado ou algemado.”

Essa não é a primeira vez que J.A. - sem o Ensino Fundamental completo - compõe páginas de livro de poesias. No ano passado ele escreveu três páginas da segunda edição do livro Vozes de um tempo. Na ocasião, as poesias Luz da sabedoria, Distância e Ser como um sol ressurgindo foram publicadas. As poesias de J.A. também fazem parte da obra Sentimento que eu vivo, lançada em fevereiro de 2016, na 43ª Feira do Livro da Furg.

Programas educacionais, profissionais e literários
A Perg é uma das poucas penitenciárias da Zona Sul a manter programas de formação educacional, literário e profissional. A Perg tem quatro espaços - um em cada pavilhão - para que os apenados possam participar das aulas. A Unidade possui, inclusive, uma sala com estrutura de escola. No ano passado 57 presos concluíram o Ensino Fundamental. No meio deste ano foi assinado com o município um termo de cooperação para que sejam realizadas oficinas preparatórias para inserir o preso na rede. Em julho deste ano, 80 detentos receberam diploma por formação de pintura predial. Outros participam de um projeto de costura.

O FUNDO DO POÇO
Foi tão cruel a maneira como eu reconheci que o fundo do poço existe.
Isso aconteceu no momento em que percebi ter magoado alguém profundamente.
A decepção que essa pessoa teve foi tão profunda a ponto de fazer sentir-me com duas identidades, duas caras, talvez até duas personalidades...
Descobri então como são úmidas e gélidas as paredes do fundo do poço e que só existe luz lá no fundo se olharmos para cima, ainda assim a luz é turva.
Percebe-se então que a luz que se vê é justamente da entrada.
Puxa vida...
E como é fácil entrar e tão difícil sair, principalmente se quem nele estiver ficar cavocando mais e mais, na tentativa não lúcida de sair dele.
Cruel destino para quem está se afogando, descobrirá que lá no fundo do poço tem águas inocentemente afogantes, fazendo jus ao nome - poço.
Mesmo que o poço esteja seco, nem mesmo assim menos perigoso, suas paredes tórridas e empoeiradas não há de ser bom destino para quem está sedento.
Nesse caso o poço de estar renegando o próprio nome, no mínimo se contradizendo.
O fundo do poço só é armadilha para os desatentos, afinal ele não é salão de festas, ele não é anfitrião de nada e nem quer ninguém como hóspede.
O “curioso” é que nele penetra!

vozes de um teeempo copy


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