Agroindústria

Safra recorde de duas décadas no pêssego

Maior produção havia sido em 1997, com 69,3 toneladas; este ano a estimativa é de pouco mais de 44 milhões de quilos

06 de Janeiro de 2017 - 06h28 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Maria da Graça Marques
graca@diariopopular.com.br 

Imagem de arquivo mostra funcionária de indústria de conserva durante a safra do pêssego (Foto: Moizés Vasconcellos - DP)

Imagem de arquivo mostra funcionária de indústria de conserva durante a safra do pêssego (Foto: Moizés Vasconcellos - DP)

A maior safra de pêssegos das duas últimas décadas, segundo dados fornecidos pela agência de Pelotas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), traz para a indústria de conservas em volume de produção um dos melhores resultados dos últimos anos, repetindo o que ocorreu na safra de 2013/2014.

Retrospectiva fornecida pelo Sindicato da Indústria de Doces e Conservas de Pelotas (Sindocopel) mostra que o pico de produção da indústria deste tipo de fruta ocorreu na safra de 2011/2012, com 62 milhões de latas. Nesta de 2016/2017, que deve ser concluída até a próxima semana, a estimativa do presidente Paulo Crochemore é que sejam produzidas 55 milhões de latas. Com 45% da safra colhida na primeira semana de dezembro, a estimativa é de uma colheita de 44,1 milhões de quilos. A maior colheita de pêssegos na região ocorreu em 1997, com o total de 69,3 mil toneladas, de acordo com o IBGE.

No Produto Interno Bruto (PIB) da indústria pelotense, a produção de conservas de pêssego fica em terceiro lugar, superada apenas pela construção civil e pelo beneficiamento de arroz. Dentro da cadeia do pêssego, anualmente, são gerados pela indústria conserveira de 2,5 mil a 5 mil empregos diretos, números que são multiplicados por cinco, se considerados todos os elos que iniciam com a produção do pêssego e alcançam etapas como a da logística de abastecimento da indústria com a fruta e de distribuição do produto embalado, até chegar à comercialização no atacado e no varejo. Segundo Crochemore, chegam a 25 mil em uma safra como a atual, que já está colhida e envasada em 90%.

“A cadeia do pêssego, sem dúvida, é representativa e importante para a economia de Pelotas. Mesmo assim, é importante destacar que nas últimas décadas, houve diminuição da participação da indústria de conservas no PIB do município e, por consequência, na geração de emprego e renda”, avalia o presidente da Associação dos Economistas da Zona Sul (Aeconsul) e professor na Universidade Católica de Pelotas (UCPel), Ezequiel Megiato. “Nas regiões mais desenvolvidas do mundo, nota-se, regra geral, a valorização da cadeia produtiva local, bem como a criação de políticas de incentivo e, de igual modo, de selos que atestem algum diferencial qualitativo”, completa Megiato, que lembra ser sazonal a cultura do pêssego, com uma safra a cada ano.

“Nenhum produtor perdeu frutas neste ano, com o pagamento de um preço digno, baseado em custos”, explica Crochemore. “Há mais de dez anos trabalhamos juntos”, completa, citando o estímulo que é dado atualmente pela indústria à produção do pêssego, em substituição a culturas como a do fumo. “Hoje, temos um olhar muito bom para o pêssego”, acrescenta. Numa radiografia da indústria conserveira de Pelotas e região, o presidente do Sindocopel lembra que estão no mercado 13 empresas, todas mecanizadas, o que confere maior produtividade às indústrias, a partir de uma qualidade maior da fruta colhida. Hoje, a produção de pêssegos da região responde por 90% de toda a safra gaúcha, com o trabalho de 1,5 mil produtores, que cultivam, em média, cinco hectares cada um, caracterizados como pequenos e médios agricultores.

“Como cadeia, evoluímos muito”, avalia Crochemore. “Na década de 60, chegamos a ter 70 indústrias, mas com uma produção bem menor, porque não era mecanizada”, justifica. Como exemplo, cita a antiga Cicasul, que gerava 4 mil empregos para uma produção menor que a feita atualmente pela mão de obra de 500 funcionários.

A tecnologia é a mesma empregada no Argentina e na Grécia, os dois países que concorrem com a compota de pêssego produzida em Pelotas e na região, que hoje é responsável pelo abastecimento de 90% do mercado nacional. Esta é uma cadeia, no entanto, que não está imune às incertezas econômicas e políticas do país. “A nossa vilã é a economia”, diz o presidente do Sindocopel.

“As importações ainda acontecem”, reconhece Crochemore, que quantifica a entrada recente de três milhões de latas do pêssego argentino de Mendonza, principalmente para os mercados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, mas também da capital gaúcha, através das importadoras das grandes redes varejistas. “O câmbio é que ainda favorece a nossa produção”, conclui o industrial. Situação que pode mudar, de acordo com Megiato, que prevê mudanças cambiais para o dólar, a partir da posse de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos, voltando a favorecer as importações pelo mercado brasileiro.

Hoje, das 13 indústrias que funcionam na região, oito e mais uma cooperativa estão localizadas em Pelotas, de acordo com o secretário executivo do Sindocopel, Cláudio Almeida. Juntas, as 13 empresas são responsáveis por 95% do pêssego que chega ao mercado brasileiro. Do total da produção de frutas nos pessegueiros da região, 80% vão para a indústria. Do restante, de 3% a 4% ficam para o consumo in natura, sobrando cerca de 15% para a utilização como subproduto na fabricação de pessegadas, sucos e geleias. Já o aproveitamento da polpa do pêssego é toda feita por empresas de fora da região, explica Crochemore. “Mas não é muito”, completa o industrial.

Nos supermercados de Pelotas, uma lata de compota de pêssego custa R$ 6,00 em média, valor que é acrescido pelo frete para o abastecimento do centro do país. A indústria vende a lata a R$ 4,80, mas com o frete o produto pode chegar por R$ 5,20 para o atacado, que repassará os custos de distribuição ao varejista, que, por sua vez, fixará o preço de prateleira para o consumidor final com base em despesas e projeção de lucro. Segundo Crochemore, o consumo está estável. “Nossa venda de final de ano foi boa”, comemora, contando que algumas redes de supermercados gaúchas chegaram a fazer pedidos extras.

Reconhecimento nacional
A compota de pêssego é um produto típico de Pelotas, que leva a marca da região para diferentes mercados consumidores e, como tal, é candidato a receber o selo de Identidade Geográfica (IG), como já ocorreu com o tradicional doce de Pelotas. Já existe uma associação para dar andamento ao processo de reconhecimento da marca junto ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). A ideia, segundo o presidente Crochemore, é criar um produto diferenciado, com qualidade premium, para receber a certificação. São mais de 150 anos de história da produção do pêssego na nossa região, lembra o presidente do Sindocopel. 

Mas antes disso, deve ser finalizado o processo de registro da região de Pelotas e da antiga Pelotas, formada pelas cidades emancipadas dela, como região doceira pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em reconhecimento à tradição e reputação na produção de doces, incluindo as compotas, pessegadas, passas e geleias feitas de pêssego. A partir deste registro, será desenvolvido projeto aprovado pela Embrapa de definição e execução de medidas de salvaguarda ao trabalho tradicional das famílias produtoras, conta o supervisor de Prospecção e Avaliação de Tecnologias da Embrapa Clima Temperado, Daniel Aquini.

 


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