Apertou a corda

Despencam os créditos para microempresas

Com alta nos juros, financiamento ficou mais difícil para pequenos empreendedores

07 de Janeiro de 2017 - 07h12 Corrigir A + A -

Por: Tânia Cabistany
taniac@diariopopular.com.br 

A cabeleireira Adelaide Schneider Milech já utilizou a linha de microcrédito duas vezes;

A cabeleireira Adelaide Schneider Milech já utilizou a linha de microcrédito duas vezes; "Foi muito bom. Para nós foi a saída", disse (Foto: Jô Folha - DP)

Em meio à crise, procura por emprego continua (Divulgação) (Foto: Jô Folha - DP)

Em meio à crise, procura por emprego continua (Divulgação) (Foto: Jô Folha - DP)

Com uma alta nos juros, que pularam de 0,5% para 3% ao mês, caiu muito a procura pelos financiamentos para micro e pequenas empresas no ano passado. A linha de crédito liberada pelo governo federal via prefeitura, que já chegou a disponibilizar até R$13 milhões em 2013, fechou 2016 com o empréstimo de R$1,4 milhão. A crise fez com que o Banco Central aumentasse a taxa e diminuísse o prazo para pagamento, passando de 36 vezes para 12, o que afugentou possíveis interessados.

Aumentou o risco e isso provocou a retração, comenta o secretário de Desenvolvimento Econômico e Turismo, Fernando Estima. “Se o pequeno empreendedor não fizer uma conta muito bem feita, colocando no custo do produto, terá dificuldade em ter resultados positivos. Tem que verificar se o negócio suporta os juros”, analisa. Ainda assim, entre os empreendimentos viabilizados este ano com recursos dessa linha estão as pequenas franquias.

Estima salienta que quando entrou para a prefeitura tinha uma expectativa diferente, pois acreditava que a inadimplência fosse alta nessa linha de crédito. No entanto, sempre foi muito menor que a de mercado. Explica que o dinheiro é entregue para famílias e normalmente o fiador é o cônjuge, o que resulta em compromisso e envolvimento no negócio.

O financiamento é possível para pessoa física e micro e pequenos empreendedores individuais, a todo o tipo de operação, como salões de beleza, minimercados, vendedores autônomos, mototáxis, entre outras atividades de pequeno porte. Com o desemprego, muitas pessoas procuraram alternativas para sustento e tem gente fazendo empadinha, representando franquia, assinala o secretário.

Qualquer pessoa pode acessar a linha de crédito. No Mercado Central de Pelotas funciona a sede do Banco de Serviços Microcrédito, que orienta sobre a documentação. Ao receber o material, o setor analisa, aprova ou não e após faz uma visita técnica para verificar o investimento. O interessado precisa comprovar que a iniciativa é uma oportunidade concreta de resultado. Uma vez aprovado crédito, a verba é enviada para o banco da preferência da pessoa.

Cabeleireira investe em salão de beleza
A cabeleireira Adelaide Schneider Milech, 47, atua há 25 anos no ramo. Proprietária de um salão de beleza nas Três Vendas, já utilizou a linha de microcrédito duas vezes. Decidiu ampliar o espaço físico de seu estabelecimento e precisou comprar móveis. Esse foi o primeiro financiamento contraído. Depois de pagá-lo, fez outro. Dessa vez para implantar melhorias. Investiu em equipamentos, entre eles um aparelho de ar condicionado. Já está pago também.

“Foi muito bom. Para nós foi a saída. Pagamos juros baixos. Tomara que continue tendo essa linha”, diz. Ela pretendia ir atrás de um terceiro empréstimo para seguir investindo no negócio próprio, porém desistiu ao ficar sabendo que as taxas haviam aumentado. Optou por não fazer por enquanto e esperar para ver o comportamento do mercado diante da crise econômica pela qual o país atravessa.

Pesquisa com empreendedores
Intitulada Financiamento dos Pequenos Negócios, pesquisa efetuada pelo Sebrae nacional revela existir ainda uma grande barreira para que micro e pequenas empresas (MPEs) solicitem empréstimo. Conforme a assessoria de comunicação do Serviço, mais de 80% dos empreendimentos não solicitam crédito bancário, número que aumentou 10% com relação a 2015. No Rio Grande do Sul, apenas 14% dos empresários entrevistados solicitaram financiamento nos últimos seis meses.

Os dados indicam ainda que para os gaúchos, a taxa de juros também responde pela maior dificuldade em conseguir realizar uma transação com instituições de crédito (55%). A entidade ouviu 6.886 empreendedores em todo o país, por meio de questionários aplicados via contato telefônico, entre agosto e setembro.

Sebrae firma convênio com a prefeitura
De acordo com Estima, o país fez um esforço grande ao trazer para a formalização uma série de potenciais empreendedores. Devem existir atualmente cerca de nove milhões no Brasil inteiro que pagam uma taxa mensal de R$ 40,00 e têm direito a CNPJ de empresa individual. Os microempreendedores individuais (MEIs) podem melhorar inclusive a comprovação no momento de aposentadoria, emitir nota fiscal e, se sofrerem algum acidente, têm cobertura do INSS.

O Sebrae firmou convênio com a prefeitura, que a partir deste ano irá atender os interessados na Sala do Empreendedor, que funciona na Secretaria de Gestão da Cidade e Mobilidade Urbana (prédio da antiga Coopebra, na rua Lobo da Costa). Lá, segundo a coordenadora do Sebrae local, Rosani Ribeiro, tem a rede Simples e Simplificada. O alvará já era emitido lá e com essa mudança a pessoa passará a fazer tudo no mesmo local, em vez de se dividir entre o Sebrae e a prefeitura. Em Rio Grande também passará a ocorrer dessa forma.

Começo de ano está favorável para quem procura uma oportunidade
Para muitos brasileiros a virada de ano é sinônimo de mudanças e oportunidades. Aqueles que passaram o Réveillon desempregados acreditam que podem ocupar um lugar no mercado de trabalho, mesmo com os indicadores econômicos continuando a apontar para a recessão em 2017. Em Pelotas, a agência do Sine/FGTS terminou a primeira semana do ano com perto de 170 vagas disponíveis, enquanto uma das maiores agências de recrutamento de pessoas da cidade considera o momento positivo para a contratação de profissionais.

Para este ano o Sine do município estima um número estável de vagas ofertadas, em comparação ao ano passado. O coordenador da agência, Paulo Maurente, comenta que o momento atual é marcado pelo término dos empregos temporários e a procura por uma recolocação. “Até agora consideramos satisfatória a busca das empresas por profissionais. A partir desta época também voltam a surgir vagas na área de serviços gerais”, diz. A procura de jovens por um local de trabalho também deve aumentar no final deste mês, com a abertura do programa Jovem Aprendiz.

No país, pelo menos 11,6 milhões de pessoas terminaram o ano de 2016 desempregadas. Em Pelotas, levantamento do Observatório Social do Trabalho, através do Instituto de Filosofia, Sociologia e Política (Ifisp) da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), apontou que até junho do ano passado pelo menos 2.031 empregos formais foram perdidos. O segurança Paulo Roger Santos, 47, passou por essa experiência quando a empresa em que prestava serviços foi trocada por outra. Para ele, a dificuldade em conseguir uma recolocação está na crise que o Brasil enfrenta e no fato de várias pessoas se candidatarem às vagas em aberto, possibilitando uma escolha maior de profissionais por parte da empresa.

Luz no fim do túnel
A diretora de uma empresa de recrutamento de pessoas, Luthiele Wilhelnsen, contenta-se ao falar sobre as vagas disponíveis na primeira semana do ano. “É surpreendente, comparado ao que esperávamos. Por enquanto a procura maior é por gestores e cargos mais altos, mas também existem oportunidades para quem está começando e possui experiência”, salienta. Para a profissional, muitas pessoas não conseguem emprego por serem exigentes com horário ou salário ofertado.

Tirar o “vício” de uma pessoa que trabalhou por muito tempo em uma empresa é o que a diretora considera mais desafiador. Desta forma, alguns lugares preferem trabalhadores mais jovens, para que o tempo de adaptação seja mais rápido. A telefonista Luciana Pereira, de 44 anos, permaneceu por 21 anos no seu primeiro emprego, até ser afastada no último ano. Ela sente que estar no mesmo local por muito tempo é um empecilho. “Percebo que minha idade também incomoda”, diz, confessando que este fato acaba a intimidando na busca por outras oportunidades.

Àqueles que não possuem muita experiência, a recrutadora confessa que o comportamento da pessoa, desde o momento em que entra no local da entrevista, já é um diferencial. “Ela pode ser questionada sobre sua vida pessoal e assim podemos interpretar como ela se portaria ao trabalhar para uma empresa”, comenta.


Comentários


Diário Popular - Todos os direitos reservados