Renascimento

Notas de vida

Após décadas sem ser utilizado, piano da Santa Casa de Misericórdia é restaurado

11 de Março de 2017 - 07h09 0 comentário(s) Corrigir A + A -
Nasceu de novo: o piano F. Kaim & Sohn, de 1869, doado à Santa Casa de Misericórdia de Pelotas em 1900, nunca recebeu reparos e estava há décadas sem uso até ser descoberto por Rogério Resende em 2011, quando foi levado para Brasília para ser restaurado (Foto: Divulgação - DP)

Nasceu de novo: o piano F. Kaim & Sohn, de 1869, doado à Santa Casa de Misericórdia de Pelotas em 1900, nunca recebeu reparos e estava há décadas sem uso até ser descoberto por Rogério Resende em 2011, quando foi levado para Brasília para ser restaurado (Foto: Divulgação - DP)

Hoje convidativo a experimentá-lo, o piano estava carcomido por cupins; retirá-los fez parte da primeira etapa do processo de restauração, bem comoe trocar as madeiras que haviam sido carcomidas pelos insetos ao longo do tempo (Foto: Divulgação - DP)

Hoje convidativo a experimentá-lo, o piano estava carcomido por cupins; retirá-los fez parte da primeira etapa do processo de restauração, bem comoe trocar as madeiras que haviam sido carcomidas pelos insetos ao longo do tempo (Foto: Divulgação - DP)

Espetáculo: Rogério Resende ao lado do piano que restaurou gratuitamente e por espontânea vontade na Casa do Piano, empresa que administra junto com a família em Brasília (Foto: Divulgação - DP)

Espetáculo: Rogério Resende ao lado do piano que restaurou gratuitamente e por espontânea vontade na Casa do Piano, empresa que administra junto com a família em Brasília (Foto: Divulgação - DP)

Não fosse indelével a música, o piano F. Kaim & Sohn, pertencente à Santa Casa de Misericórdia de Pelotas, teria substituído eternamente a melodia pelo silêncio. Sem a renovação de pessoas que o utilizassem nas missas, o pó acabou tomando o lugar do brilho. Demorou décadas, mas apareceu a figura de Rogério Resende, pelotense do Areal e restaurador de pianos. Em atitude filantrópica, ele levou o instrumento até Brasília, onde hoje reside, e o consertou, inclusive o adaptando à contemporaneidade. O retorno, após seis anos de trabalho, será nesta segunda.

Resende viveu um terço da vida em Pelotas, mas foi por aqui que se iniciou musicalmente. Primeiro no violão, sob o incentivo da professora Fernanda Caringi, pessoa que, diz o restaurador, foi de extrema importância na formação. “Ela fez diferença na minha vida porque percebeu em mim alguma condição elementar de dar prosseguimento dentro da área musical”, comenta, agradecido. Na sequência Rezende passou a estudar no Conservatório de Música, por onde ficou durante um ano até se mudar para Brasília, em 1974, e por lá dar sequência na carreira tocando em casas noturnas da capital federal.

Em 1977, o divisor de águas: apresentado ao piano, recebeu a visita de afinadores e passou a se interessar pela área na qual se entregaria de corpo e alma por quase quatro décadas. O início, conta, não teve facilidades. À época, e ainda hoje em dia, eram escassas as escolas de formação de técnicos e afinadores de pianos e, para além disso, por reserva de mercado ou por pura arrogância, aqueles que detinham as informações sobre o assunto não as passavam aos demais.

Não adiantou. Resende trocou o carro por um piano e começou aí uma rotina de montar e desmontar o instrumento até entender o funcionamento de cada uma das oito mil peças - nas versões de calda, chegam a 12 mil. “Quando passei a entender melhor o instrumento, resolvi fazer o contrário daquilo que era da época: expus e ofereci para outros técnicos as informações que adquiri. O resultado disso é que temos hoje, pelo 5º ano, um encontro de técnicos em afinação de piano”, comenta.

Atualmente, Resende lidera a Casa do Piano, uma das poucas empresas brasileiras no ramo da restauração e afinação de pianos - se levados em conta apenas modelos antigos, então a soberania é quase unânime. Transporte, conserto, guarda, venda, locação e construção de réplicas também estão entre os serviços prestados.

O encontro
A relação com Pelotas não se encerrou com a mudança para Brasília. Com irmãos e pai ainda residindo por aqui, as visitas ainda são constantes, da mesma forma como são as doações de sangue para a Santa Casa. Já íntimo da instituição pelo gesto, certo dia Resende foi convidado a conhecer os instrumentos alojados no salão nobre do hospital ao que lhe saltaram aos olhos um órgão e dois pianos. Avaliá-los-ei, pensou, e a percepção foi de que um deles, embora consideravelmente deteriorado após décadas sem manutenção, tinha conserto. Era o F. Kaim & Sohm. Com numeração 5.104, o instrumento foi construído em 1869 e doado à Santa Casa em 1900, sem nunca ter recebido reparos. Rezende conta que o piano guarda grande qualidade sobretudo em relação aos graves - retumbantes sonoridades de apoio.

Cara a cara com o instrumento, não deu outra: Resende juntou o amor que nutre pela recuperação de pianos antigos com a vontade incessante por colaborar e, em 2011, se prontificou a, de forma gratuita, levar o instrumento até Brasília, restaurá-lo, e trazê-lo de volta a Pelotas.

O processo
Com o piano em Brasília, a primeira parte do restauro foi a retirada de cupins e a troca de madeiras que por eles haviam sido destruídas ao longo do tempo. “Essa etapa exige paciência. Tem que desmontar todo o instrumento e ficar com a estrutura inicial, básica”, comenta, acrescentando que o material usado, o pinho de riga, era abundante nos séculos 18 e 19, mas não tanto nos dias atuais.

Na sequência, chegando à base do piano, foi a vez da reconstrução da caixa acústica. Depois, Resende se debruçou sobre a parte interna e aí o trabalho demandou precisão e subjetividade. Por ter sido construído em 1869 e desde 1900 não passar por reparos, o piano encontrava-se defasado em suas questões técnicas, o que traria severas dificuldades aos pianistas contemporâneos no que tange à velocidade do teclar. Para sanar o problema, intervenções mecânicas foram feitas, como a implantação de um quadro de metal capaz de sustentar a afinação - que chega a 18 toneladas de pressão nas cordas.

Quanto às teclas, o principal problema era, na verdade, a ausência de algumas, sobretudo as marfins. A solução, e falando assim parece simples, foi reaproveitar peças de outros pianos, mantendo sempre a característica amarelada quanto à tonalidade.

O resultado
Resende afirma que o melhor medicamento para um piano é o uso. Se ninguém tocá-lo, “ele vai morrendo, as madeiras apodrecendo, daqui a pouco tem que jogar no lixo.” Seis anos depois, então, era chegada a hora de dar ao instrumento a alegria que há décadas se escondia em meio à poeira. Os primeiros acordes foram do próprio restaurador. Em algum lugar do passado, peça do compositor russo Sergei Rachimaninoff foi a escolhida, pelo significado especial que tem para a família que administra a Casa do Piano, em Brasília.

Ao primeiro toque, lá se foram as palavras, o coração descompassara-se. “A gente imagina e vai imaginando quem pode ter tocado nesse instrumento. Saí da cidade com 19 anos de idade e retorno trazendo o fruto de uma experiência de vida e isso se manterá como acervo. Muita emoção e alegria disso ter chegado em minhas mãos”, comenta.

O futuro
Enquanto você lê essa história, Resende está na estrada, para viagem de 36 horas de Brasília até Pelotas para devolver o piano à capela da Santa Casa. O instrumento foi acondicionado em uma van especial para transportes do tipo. Utilizada pela Casa do Piano constantemente, ela permite que o piano viaje amarrado e embalado.

Não há um horário exato para a chegada, mas o restaurador pretende fazer a entrega do piano ao hospital na manhã de segunda-feira (13). Na terça-feira, às 15h45min, será de fato sacramentado o retorno do F. Kaim com recital do flautista Raul Costa D’ávila e da pianista Joana Holanda. O instrumento, além do coração de Resende, fixará moradia também no salão nobre da Santa Casa.

Segundo a instituição, não será possível colocá-lo na capela devido a problemas no telhado. O objetivo, para o futuro, é que ele fique disponível no acervo para projetos envolvendo a música.


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