Pressão

BR-116: o atraso que só dá prejuízo à Zona Sul

Duplicação da rodovia para melhorar o trânsito e a logística até a Região Metropolitana está parada e causa danos à economia e à segurança dos motoristas

20 de Março de 2017 - 06h31 Corrigir A + A -

Por: Vinicius Peraça
vinicius.peraca@diariopopular.com.br 

Ao fundo, homem é visto sobre uma bicicleta em trecho não asfaltado das obras de duplicação da BR-116 (Foto: Paulo Rossi - DP)

Ao fundo, homem é visto sobre uma bicicleta em trecho não asfaltado das obras de duplicação da BR-116 (Foto: Paulo Rossi - DP)

Trecho próximo a Pelotas fica embarrado após chuva recente; obras de duplicação da BR-116 deviam terminar em dois, mas já levam cinco anos e não há previsão de término (Foto: Paulo Rossi - DP)

Trecho próximo a Pelotas fica embarrado após chuva recente; obras de duplicação da BR-116 deviam terminar em dois, mas já levam cinco anos e não há previsão de término (Foto: Paulo Rossi - DP)

Era para ser apenas dois, mas já se vão cinco anos de obras sem qualquer perspectiva de conclusão. A tão sonhada duplicação da BR-116 Sul, entre Guaíba e Pelotas, parece não ter fim. O que deveria ser um investimento para solucionar o problema do intenso tráfego de veículos, já é visto por especialistas como um prejuízo. Com trechos da obra abandonados e outros andando em ritmo lento, parte do trabalho que iniciou rápido e recebendo elogios está degradada e precisará ser refeita.

Tamanha é a preocupação com o deserto de operários em que se transformou a rodovia que nesta segunda-feira (20) um grupo, formado por prefeitos, secretários, vereadores e representantes de entidades da Zona Sul, irá percorrer os 250 quilômetros - não duplicados - até Porto Alegre para pedir ajuda. Três ônibus sairão de Pelotas pela manhã e se juntarão às comitivas de Rio Grande, Jaguarão, Turuçu e Camaquã. Às 14h, na Assembleia Legislativa, irão se reunir com deputados estaduais e a bancada gaúcha no Congresso para pedir que pressionem o governo pela continuidade das obras.

Assim como fará a comitiva, basta andar pela estrada para perceber o desgaste do serviço que já foi feito.

Locais da duplicação onde a nova pista ficou apenas com a base já apresentam sinais de assoreamento por conta da chuva e do vento. O que, segundo o engenheiro civil Paulo Guterres, aponta a necessidade de, no mínimo, recompactar o material utilizado. “É muito dinheiro jogado fora. Aquela compactação feita com areia, pedras e saibro se perdeu em parte. Nos locais onde nem a primeira camada de asfalto foi colocada, toda a sub-base terá que ser corrigida”, aponta.

Na última sexta-feira a equipe do Diário Popular percorreu parte da rodovia. Durante mais de uma hora, foi possível perceber que muito do aterramento está degradado e a vegetação cresce até mesmo em pontos onde já foi colocada a primeira camada de pavimento.

Custo social da obra é gigante, diz especialista
Doutor em Transportes do Laboratório de Transportes e Logística da Universidade Federal de Santa Catarina (Labtrans/UFSC) e professor da Universidade Federal de Rio Grande (Furg), o engenheiro Heitor Vieira diz ser muito difícil apontar o quanto de material está se perdendo com a obra parada e o que precisará ser refeito. No entanto, ele ressalta que o maior custo de um empreendimento como esse estar com tamanho atraso é social.

“A construção desse tipo de estrada é planejada para se pagar em cinco anos através dos benefícios econômicos para a região, redução nos fretes, menos acidentes e outros fatores. Ou seja, a cada ano de atraso, pelo menos 20% do valor investido na obra se perde por ficar parado”, explica.

Levando em conta que o investimento total na BR-116 deve chegar a R$ 1,2 bilhão e que o prazo inicial de entrega era outubro de 2014, o prejuízo estimado para a sociedade nestes 29 meses de atraso é de R$ 580 milhões. Segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF), pelo menos R$ 39 milhões são referentes ao custo social (gastos públicos com atendimento às vítimas, por exemplo) pelas 50 mortes causadas por colisões frontais ocorridas na estrada desde 2014.

Foi justamente em um destes acidentes que se envolveu a família do músico Marcello Caminha, 46. No dia 28 de janeiro, durante uma viagem de Porto Alegre para Rio Grande, onde faria um show na Feira do Livro, a van em que viajavam bateu de frente em um carro que invadiu a pista no quilômetro 311, em Guaíba. Ele, a esposa Luci, 47, e os filhos Marcello, 21, e Malena, dez, ficaram feridos. O motorista do outro veículo não resistiu e morreu.

Luci conta que, com a colisão, Caminha fraturou o nariz e feriu a boca, o que o obrigou a se afastar dos palcos e cancelar pelo menos sete shows. No entanto, mais do que o prejuízo financeiro, ficou o trauma da família. “Desde então ainda não pegamos a BR-116 de novo. Mas vamos a Rio Grande no dia 30 para a apresentação que não ocorreu em janeiro. Devagar, tomando o mesmo cuidado que sempre tivemos para chegarmos em segurança”, afirma Luci.

É justamente para a segurança da estrada que chama atenção o superintendente regional do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). Segundo ele, se houver a liberação de R$ 200 milhões de orçamento para a BR-116 em 2017, como pretende a comitiva da Zona Sul, até o final do ano seria possível circular em pelo menos 100 quilômetros de pista dupla, reduzindo o risco de acidentes. Porém, o governo federal tem hoje apenas R$ 59 milhões garantidos, de um total de R$ 600 milhões necessários para concluir toda a duplicação.

“Estamos atirados à própria sorte aqui no Sul. É lamentável que a gente invista tanto para produzir mais e a estrada ao invés de melhorar, piore”, indigna-se o agricultor Gilberto Dario Schwantz, 73. Há mais de 40 anos plantando soja e nos últimos 17 produzindo também arroz na localidade de Capão do Almoço, ele já perdeu as contas de quantas vezes viu caminhões parando na estrada. “É um baita transtorno, perda de tempo e mais custo no frete. Onde já se viu isso? Uma estrada em trajeto portuário em pista simples e cheia de desvios e canteiros de obras parados.”


Comentários


Diário Popular - Todos os direitos reservados