Expressão

Em traços críticos

Motoca, cartunista rio-grandina residente em Pelotas, acumula mais de 93 mil curtidas em página onde posta charges e tirinhas

20 de Março de 2017 - 10h50 0 comentário(s) Corrigir A + A -
Produções abordam principalmente as opressões (Foto: Divulgação - DP)

Produções abordam principalmente as opressões (Foto: Divulgação - DP)

Maíra Colares, rio-grandina residente em Pelotas e estudante do curso de Cinema de Animação da UFPel, tem alguma dificuldade com a expressão oral. Percebe-se que ela tem o que falar, sabe o que quer falar, mas se complica na hora do como. Quando assume o pseudônimo de Motoca e começa a desenhar, porém, a situação se inverte e ela é capaz de duras e afiadas críticas sobre temas como a política nacional, a opressão diária, o aborto, a mídia. Tem dado certo, essa outra forma de expressão: a página criada no Facebook para reunir tirinhas, charges e quadrinhos já passou dos 93 mil likes.

Maíra desenha e é tímida desde pequena. Hoje com 24 anos, cresceu sob a influência dos mangás - quadrinhos com estilo japonês - e dentro deste formato começou a produzir aos 12 anos, vindo a se interessar por cartum em 2013, quando entrou no curso de Cinema de Animação da UFPel - Laerte é a maior inspiração. A página foi criada em 2016 inicialmente para funcionar como um portfólio nutrido de ilustrações e outras produções “mais técnicas”. Aos poucos, entretanto, as histórias curtas foram ganhando mais espaço, principalmente após a charge em que criticava o processo que culminou no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e a posse de Michel Temer - a postagem conta, até o momento, com nove mil curtidas.

Identificação
As tirinhas e charges circulam em torno das opressões e no combate à onda de conservadorismo que permeia Brasil e mundo atualmente, sempre com temas que tenham causado discussão e revolta na semana. Daí ela lê, se informa e no mesmo dia pega o tablet, desenha e posta na página. “É libertador”, comenta, sobre o fato de, através de traços, expressar aquilo que a voz por vezes teima em não alcançar.

Libertador é também para quem lê e se identifica com as situações que ela ali descreve. Algo como sororidade. Maíra sofreu um aborto espontâneo há algum tempo. No ano passado, quando a sociedade voltou a discutir o assunto com certa pressa, ela resolveu se desenhar em quadrinhos contando a própria história, dando a visão, em meio ao turbilhão de opiniões, de uma mulher que pelo problema já havia passado.

O resultado foi dezenas de mulheres entrando em contato agradecendo e também compartilhando suas próprias histórias. Homens a criticando e a ameaçando, também, mas principalmente a sororidade. “É interessante essa conexão. Acho muito bom que as pessoas se sintam representadas pelo trabalho”, comenta, com um tímido e largo sorriso ao rosto.


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