Artes visuais

Duplo aniversário

Exposições comemoram tanto o talento de Leopoldo Gotuzzo quanto a história do Malg em manter vivo um patrimônio artístico significativo de Pelotas

08 de Abril de 2017 - 16h43 0 comentário(s) Corrigir A + A -
(Auto)retrato do artista quando jovem é uma das telas pintadas a óleo mais conhecidas do pelotense Leopoldo Gotuzzo, patrono do Malg, único museu de arte da cidade, que está com duas exposições alusivas aos seus 30 anos de existência - A coleção de Leopoldo Gotuzzo e A trajetória do Museu (Foto: Paulo Rossi - DP)

(Auto)retrato do artista quando jovem é uma das telas pintadas a óleo mais conhecidas do pelotense Leopoldo Gotuzzo, patrono do Malg, único museu de arte da cidade, que está com duas exposições alusivas aos seus 30 anos de existência - A coleção de Leopoldo Gotuzzo e A trajetória do Museu (Foto: Paulo Rossi - DP)

Visitantes observam obras expostas a partir deste sábado no Malg; mostras podem ser acompanhadas até dia 4 de junho de terça a sábado (Foto: Paulo Rossi - DP)

Visitantes observam obras expostas a partir deste sábado no Malg; mostras podem ser acompanhadas até dia 4 de junho de terça a sábado (Foto: Paulo Rossi - DP)

Voluntários fazem os últimos ajustes referentes à mostra A trajetória do Museu, que pela primeira vez reúne volume de impressos que registram o trabalho desenvolvido no Malg nas últimas três décadas (Foto: Paulo Rossi - DP)

Voluntários fazem os últimos ajustes referentes à mostra A trajetória do Museu, que pela primeira vez reúne volume de impressos que registram o trabalho desenvolvido no Malg nas últimas três décadas (Foto: Paulo Rossi - DP)

Seja velho conhecido ou iniciante nas artes, eis uma chance de conhecer com profundidade o legado deixado por um dos mais célebres artistas pelotenses e, também, da casa que abriga seu acervo. Através de duas exposições, o Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo (Malg) finaliza um ciclo de comemorações alusivas ao 30º aniversário da instituição, ocorrido em 7 de novembro de 2016, e aos 130 anos do nascimento do patrono, celebrado em 8 de abril.

As novas mostras revelam duas trajetórias diferentes, sendo que uma influencia a outra. Com curadoria de José Luiz de Pellegrin, Raquel Schwonke e Carmen Regina Diniz, A coleção de Leopoldo Gotuzzo oferece seleção representativa da produção do pintor. Já A trajetória do Museu reúne, pela primeira vez, todo o volume de impressos referentes ao trabalho desenvolvido pelo Malg. Há uma relação entre arte e curadoria, reconhecimento e registro, legado e tempo, nas duas montagens.

O patrono
O repertório dedicado a Gotuzzo apresenta 60 pinturas, 15 desenhos, 18 croquis e sete peças de mobiliário pertencentes ao artista, além de inúmeros objetos pessoais, como cadernetas, atas de presença em exposições, malas, material de pintura e até mesmo medalhas obtidas em salões de arte.

As obras de Gotuzzo podem ser apreciadas em diferentes séries, tanto referentes a paisagens, flores e natureza-morta quanto a nus, retratos e, inclusive, pessoas vestidas. “Criamos um novo gênero”, brinca Pellegrin. Entre estas, encontra-se o autorretrato do artista durante sua juventude.

Mesmo sendo todos trabalhos importantes, Carmen destaca A espanhola, primeira tela doada pelo próprio artista para a Escola de Belas Artes (EBA), em 1949. A segunda contribuição viria a ocorrer seis anos depois, com um montante de 16 quadros. A intenção de Gotuzzo era que os alunos da escola pudessem estudar - e de perto - obras artísticas. As demais doações ocorreram somente após a morte do pintor, em 1983.

Outra peça de renome é O repouso, de 1916 e produzida no período em que residiu na Europa, permaneceu quase uma década, de 1909 a 1918, em circulação por Roma, Madrid e Sevilha. “Gotuzzo soube cuidar muito bem da sua carreira”, avalia Pellegrin, lembrando que o artista chegava a enviar, de onde estivesse, obras para participar de eventos significativos no Brasil.

Objeto de fascinação para os três curadores, Gotuzzo era conservador e nunca rompeu com a estrutura clássica de seu trabalho. Sabia que não era um artista moderno - aliás, criticava a arte contemporânea, em voga durante boa parte de seu período produtivo. Por isso, cuidou para que o próprio legado fosse valorizado na posteridade, tanto que registrou todos trabalhos, prêmios, exposições e muitas outras facetas particulares em documentos.

“A gente acredita que ele fez isso intencionalmente”, entrega Raquel. Se realmente foi proposital, deu certo. Toda a pesquisa sobre o artista só foi possível através desse inventário cuidadosamente elaborado. Porém, Gotuzzo não viveu para ver o destino da sua coleção. Morreu três anos antes da criação do Malg, que viria a ocorrer em 1986.

Retrospectiva
A história do museu inicia quando a Escola de Belas Artes, criada por Marina de Moraes Pires em 1949, vincula-se à Universidade Federal de Pelotas (UFPel), transformando-se em Instituto de Artes e, posteriormente, em Instituto de Letras e Artes. Muito do acervo da EBA acabou sendo espalhado pelos setores da Universidade. Em 1983, iniciou-se um movimento de juntar esse patrimônio artístico. Pellegrin conta que uma das obras mais emblemáticas da exposição, Baiana (1942), era um dos quadros que ficavam no Conservatório de Música e o marcou desde a primeira vez que pisou no prédio.

Entre os resultados desse agrupamento está a criação do Malg, creditada ao então pró-reitor de Extensão, Renato Varoto, e à primeira chefe da instituição, Luciana Renck Reis. “Se não fosse o museu, Gotuzzo provavelmente seria esquecido”, analisa Raquel. É curioso perceber que o Malg toma forma justamente num período em que se inicia uma maior valorização da pintura, da arte clássica. Essa tendência reverbera em todo o país, inclusive em Pelotas, onde surgem vários espaços expositivos.

A trajetória do museu, de 1986 a 2016, é contada na terceira sala do casarão. Pellegrin responsabilizou-se pela curadoria e apresenta os convites de (quase) todas exposições que passaram pela instituição. Segundo o professor e artista, é um reconhecimento das pessoas que trabalharam para o Malg durante todos esses anos, desde o próprio Gotuzzo até os colaboradores das mostras.

Ao contrário das duas primeiras salas, em que a intenção é de que as obras se destaquem individualmente, esta quer mostrar o volume de trabalho, a rica história do museu e suas ações através de um acúmulo de documentos, sejam eles convites, livros, catálogos, reportagens e cartazes.

O que fica desse retrospecto é a necessidade de projetar o futuro do museu. De acordo com o trio de curadores, o Malg precisa de um espaço próprio para que se possa investir na estrutura do prédio, a fim de que o legado de Gotuzzo permaneça sendo reverenciado.

Serviço
O quê: exposições A coleção de Leopoldo Gotuzzo e A trajetória do Museu 
Quando: abertura às 10h deste sábado; visitação de terça a domingo, das 10h às 19h, até o dia 4 de junho
Onde: Malg, na rua General Osório, 725
Entrada franca

 


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