Saúde mental

Humanização no Hospital Espírita

De um lado, as dificuldades financeiras. De outro, no entanto, o carinho e o tratamento da pessoa, de fato, como uma pessoa

19 de Abril de 2017 - 08h30 Corrigir A + A -
Pacientes podem trabalhar na horta (Foto: Ígor Islabão - DP)

Pacientes podem trabalhar na horta (Foto: Ígor Islabão - DP)

Ao invés de eletrochoques, o contato com a arte. No lugar da exclusão social, passeios pela cidade. Há uma grande dicotomia no Hospital Espírita de Pelotas (HEP). Ao mesmo tempo em que é amparo 24 horas por dia para pessoas com transtornos mentais e dependentes químicos, tem contestada a existência, ainda em 2017, por causar a internação marcas e estigmatização dentro da sociedade. Enquanto ainda é necessária, a instituição busca humanizar seus tratamentos.

A contestação feita à existência de hospitais psiquiátricos, o Espírita um deles, resultou na Reforma Psiquiátrica, que busca a transferência do tratamento dessas instituições para os Centros de Atenção Psicossociais (Caps). Com isso, se espera o fim ou pelo menos a drástica diminuição das internações.

Após 11 anos de tramitação no Congresso Nacional, em 2011 foi instituída a Lei Antimanicomial. No âmbito da diretoria do Hospital Espírita ela é tida que é como a responsável pela crise financeira que a instituição vive. O Espírita recebe R$ 55,20 por diária de cada internação pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O custo de cada paciente por dia é de R$ 159,70, ao que o hospital absorve diariamente um prejuízo de R$ 104,50 por internado. “Daí vem o nosso desequilíbrio”, critica Nelson Duarte Medeiros, tesoureiro da instituição.

Para a professora de Saúde Mental Coletiva do curso de Psicologia da UCPel, Carmen Lopes, a luta antimanicomial entende que em determinados casos de necessidade de um cuidado mais intensivo se pense na internação, mas que esta seja feita em um hospital geral, com o objetivo de evitar a principal marca deixada, segundo ela, pelos hospitais psiquiátricos: a estigmatização. “Ainda precisamos destes locais, mas a insistência atrapalha, porque a partir do momento em que eles não existem o governo precisa se responsabilizar por esse tratamento.”

O processo de humanização pelo qual o Espírita tem passado nos últimos anos se dá principalmente através de projetos que não apenas ocupem o paciente, mas principalmente os façam sentir-se úteis. “As pessoas melhoram à medida em que são tratadas como pessoas.

Fazemos uma gestão baseada em Nise da Silveira”, comenta o doutor Paulo Luís Sousa, flor às mãos, fazendo referência à renomada psiquiatra brasileira cujo trabalho é pioneiro justamente na luta antimanicomial no Brasil.

São os casos de visitas ao circo e cinema, apresentações musicais e da horta do hospital. Além de contribuir para a alimentação através do plantio de todo tipo de vegetal, ela potencializa nas pessoas aquilo que gostam e são boas em fazer. Um dos internos, de 52 anos, aprova a iniciativa. “Sou do Monte Bonito, fiz isso durante a minha vida toda”, diz.


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