Angústia

Olhar para os indígenas

Caingangues transferidos pela prefeitura há quase um ano para terreno na Cascata ainda lutam para se manter em condições dignas

21 de Abril de 2017 - 07h30 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Vinicius Peraça
vinicius.peraca@diariopopular.com.br 

A proximidade do inverno preocupa as mães das crianças (Foto: Jerônimo Gonzalez - DP)

A proximidade do inverno preocupa as mães das crianças (Foto: Jerônimo Gonzalez - DP)

Distantes 30 quilômetros do centro da cidade, viram as vendas de artesanato - única fonte de renda - despencar (Foto: Jerônimo Gonzalez - DP)

Distantes 30 quilômetros do centro da cidade, viram as vendas de artesanato - única fonte de renda - despencar (Foto: Jerônimo Gonzalez - DP)

Aos cinco meses de idade, o pequeno Uéslei é um dos caingangues da tribo garó que já nasceram em terras pelotenses. E legitimamente indígenas. Desde julho do ano passado, ele e todas as 16 famílias vindas de Santa Catarina há um ano e dois meses vivem em uma área de 7,5 hectares na Colônia Santa Eulália, doada oficialmente pela prefeitura. Foi a solução encontrada para retirá-los da beira da estrada, em frente à Estação Rodoviária, onde se instalaram quando chegaram à cidade.

Porém, meses depois da mudança, muitas dificuldades que já existiam no acampamento improvisado se repetem.

Ao mesmo tempo em que consideram positivo o fato de ter um lugar garantido para viver e cultivar as tradições, os índios não escondem suas preocupações. Distantes 30 quilômetros do centro da cidade, viram as vendas de artesanato - única fonte de renda - despencar. Com arco e flecha na mão, Marcos Salvador, 23, conta que as famílias caingangues se revezam diariamente na venda de seus produtos. É a forma de buscar conseguir dinheiro para manter o básico, como alimentação e vestuário.

“Na maioria das vezes a gente passa um dia na cidade e acaba vendendo, no máximo, R$ 50,00. É bem pouco”, lamenta o filho do cacique Pedro Salvador. Segundo ele, enquanto mantinham como base as barracas próximas à Rodoviária vendiam mais e contavam com o apoio da população. “Éramos vistos, lembrados. As pessoas compravam e também ajudavam com roupa e água. Agora ficamos invisíveis”, completa.

Outros, como alternativa, viajam para municípios vizinhos em busca de compradores para os artigos. Em cidades como Rio Grande e Jaguarão, passam de dois a três dias vendendo e dormindo de favor em igrejas ou abrigos. O que entristece o cacique. “Vamos fincar raízes em Pelotas, não pretendemos sair. Viemos de Chapecó em busca de uma vida melhor e porque nossos antepassados também passaram por aqui.”

Habitação precária e atraso nas cestas básicas
O cacique Salvador não esqueceu do compromisso que ouviu do município e da Fundação Nacional do Índio (Funai) tão logo foram transferidos para a propriedade no 5º Distrito de Pelotas. Naquele momento, receberam lonas para montar as barracas nas quais dormiriam durante algum tempo e aguardariam a entrega de kits habitacionais. Dez meses depois, no entanto, as lonas continuam lá e nenhuma casa foi construída.

Jorge Carvalho, coordenador da Funai responsável pelo acompanhamento da aldeia garó, justifica a demora apontando a burocracia. “Em janeiro o governo fez uma licitação, porém até agora ainda não recebemos os kits para distribuição. Mas espero nos próximos dias ir a Pelotas para entregar a primeira remessa, com quatro moradias”, projeta.

As habitações, bem simples, servirão apenas como abrigo do frio. Cada uma terá 20 metros quadrados, sem divisões internas, feitas de madeira de pínus. Como apenas quatro das 16 famílias serão contempladas por enquanto - sem prazo para beneficiar as outras 12 -, o risco de que o inverno caingangue mais uma vez seja debaixo de lonas existe.

Por isso, a Universidade Católica de Pelotas (UCPel) está concluindo um projeto para construção de casas para todas as famílias e a organização dos 7,5 hectares de forma a garantir o atendimento às necessidades caingangues. Até a próxima quinta-feira estarão definidas a fonte de financiamento e a forma de construção. Conforme Joseane Almeida, professora do curso de Arquitetura e Urbanismo, possivelmente será em mutirão com apoio de alunos que a proposta será executada. Com custo estimado em R$ 10 mil, cada moradia deverá contar com sala, quarto, cozinha e banheiro.

Coordenador do Núcleo de Advocacia Popular da universidade e engajado no apoio aos indígenas desde a chegada deles à cidade, Reinaldo Tillmann é otimista sobre o projeto. Segundo ele, a proposta respeita fatores culturais. “Eles deixaram Chapecó justamente porque não se adaptavam à forma como eram vistos pela sociedade. Por isso é fundamental respeitá-los e dar condições de viverem dentro do seu modo, que é distinto do nosso.”

Dentre as diferenças, está o modelo produtivo de subsistência. Contudo, ainda não tiveram condições de cultivar e colher na propriedade da Cascata todo o alimento que necessitam. Dependem, ainda, de apoio através de cestas básicas. E elas não têm chegado como deveriam. Há dois meses os produtos, que deveriam ser encaminhados pela Funai, estão em atraso. E só devem voltar a ser entregues em julho. “O Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário (MDSA) não adquiriu as cestas ainda este ano para nenhuma comunidade indígena, o que nos deixa sem condições de atender os caingangues”, lamenta Jorge Carvalho. Com isso, tem cabido à prefeitura tentar suprir a falta, o que não consegue desde março.

Saúde é preocupação
Dentre os 55 índios da aldeia garó, dez são crianças até dois anos de idade. E são eles quem mais sofrem com o clima, sobretudo morando em barracas de lona. Uéslei, o bebê de cinco meses citado no começo da matéria, passou toda a madrugada da última terça com febre, assustando a mãe, Marciana Salvador, 22.

Sem visitas de médicos há três semanas na aldeia (elas deveriam ocorrer todas as sextas), ela e todos os que necessitam de atendimento têm duas opções: ou buscam a UBS Cascata, a cerca de cinco quilômetros, ou se automedicam com os analgésicos e antitérmicos disponíveis na Unidade de Assistência, única casa de alvenaria da comunidade e que serve como base para os atendimentos das secretarias de Saúde e de Assistência Social.

Segundo a enfermeira Sheila Strelow, que coordena o atendimento de saúde indígena, as três semanas sem visitas médicas aos caingangues têm explicação: no dia 7 a razão foi um curso realizado em Porto Alegre pela médica cubana que atende a aldeia; já a ausência nos dias 14 e 21 foi justificada por conta dos feriados de Páscoa e Tiradentes. “O ideal seria que a doutora viesse duas vezes por semana. Ainda mais agora que chega o inverno”, cobra o cacique Pedro Salvador.

No entanto, a secretária de Saúde, Ana Costa, discorda. Segundo ela, as visitas semanais à Unidade de Assistência fazem parte dos “facilitadores” criados para adaptar o atendimento às questões culturais dos índios. “Todos eles são referenciados na UBS Cascata, mas podem consultar em qualquer unidade que preferirem”, explica.

Sobre os medicamentos disponíveis na Unidade de Assistência, a enfermeira Sheila garante que todos os índios foram orientados sobre formas de uso e dosagem. Entretanto, Marciana e outras mães afirmam ter dificuldades na hora de administrar e, por vezes, acabam optando apenas pelas ervas medicinais. “Nem todos sabemos tão bem o português e nos confundimos para identificar os nomes dos remédios, para que servem”, explica Elisete Salvador, 32, que cuida de três filhos.

Saneamento é um desafio
A água da aldeia ainda é pouca. Apenas duas caixas d’água, abastecidas uma vez por semana por um caminhão-pipa, abastecem toda a comunidade. O pedido é por um poço artesiano, o que está dentro do projeto da UCPel e deverá ser atendido com o apoio da Secretaria de Desenvolvimento Rural.

Saneamento básico e higiene também são dificuldades. Apenas um banheiro atende os caingangues. O que, obviamente, não dá conta. Tanto para as necessidades fisiológicas quanto para os banhos. “Imagina 55 pessoas querendo ir ao banheiro, tomar banho. Além disso, a fossa que foi feita está com problema, transbordando”, aponta o cacique.

A esperança de Pedro Salvador e de todos aqueles que o acompanharam desde Chapecó até as novas terras, em Pelotas, é que prefeitura, Funai e governo federal, com o apoio da UCPel, se entendam. E que aquilo que já foi pior, à beira da estrada, possa finalmente se transformar em algo digno para aqueles que representam as origens do povo gaúcho e brasileiro.


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