SUS

Sem pré-câncer e sem pré-natal

Com déficit de aproximadamente 20 médicos nas 12 Unidades Básicas de Saúde que não contam com o programa Estratégia Saúde da Família (ESF), pacientes têm sofrido com a falta dos dois serviços que deveriam ser prioritários

16 de Maio de 2017 - 06h31 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Michele Ferreira
michele@diariopopular.com.br 

A Unidade Básica de Saúde da Cascata, na zona rural de Pelotas; local não atende nem gestantes e as mulheres que procuram manter seus exames em dia são encaminhadas para o Centro de Especialidades, no centro da área urbana do município (Foto: Paulo Rossi/DP) (Foto: Paulo Rossi - DP)

A Unidade Básica de Saúde da Cascata, na zona rural de Pelotas; local não atende nem gestantes e as mulheres que procuram manter seus exames em dia são encaminhadas para o Centro de Especialidades, no centro da área urbana do município (Foto: Paulo Rossi/DP) (Foto: Paulo Rossi - DP)

Eduarda Leite, 25, com o filho José Alfredo, de um ano e oito meses no colo; moradora no Jardim de Allah, Zona Norte de Pelotas, durante a entrevista ao Diário Popular, dia 8 deste mês, ela preparava-se para iniciar, por volta das 9h, uma peregrinação em busca da primeira consulta de pré-natal. Na gestação do primogênito, a jovem também não conseguiu fazer o acompanhamento na UBS perto de casa, à época, no Sítio Floresta (Foto: Paulo Rossi/DP) (Foto: Paulo Rossi - DP)

Eduarda Leite, 25, com o filho José Alfredo, de um ano e oito meses no colo; moradora no Jardim de Allah, Zona Norte de Pelotas, durante a entrevista ao Diário Popular, dia 8 deste mês, ela preparava-se para iniciar, por volta das 9h, uma peregrinação em busca da primeira consulta de pré-natal. Na gestação do primogênito, a jovem também não conseguiu fazer o acompanhamento na UBS perto de casa, à época, no Sítio Floresta (Foto: Paulo Rossi/DP) (Foto: Paulo Rossi - DP)

A diretora de Ações em Saúde da Secretaria Municipal de Saúde, Eliedes Ribeiro, admite a falta de pessoal, agravada pelos pedidos de aposentadoria que surgem na carona da Reforma da Previdência proposta pelo governo Temer; segundo ela, a estimativa é de que o déficit chegue a cerca de 20 médicos, entre ginecologistas e clínicos gerais - contabilizadas apenas as 12 UBSs (Foto: Ígor Islabão/DP) (Foto: Paulo Rossi - DP)

A diretora de Ações em Saúde da Secretaria Municipal de Saúde, Eliedes Ribeiro, admite a falta de pessoal, agravada pelos pedidos de aposentadoria que surgem na carona da Reforma da Previdência proposta pelo governo Temer; segundo ela, a estimativa é de que o déficit chegue a cerca de 20 médicos, entre ginecologistas e clínicos gerais - contabilizadas apenas as 12 UBSs (Foto: Ígor Islabão/DP) (Foto: Paulo Rossi - DP)

A fachada do posto de puericultura, na rua João Pessoa, zona do Porto de Pelotas; na unidade, os atendimentos estariam normalizados, divididos entre pré-natal e pré-câncer; à tarde, no entanto, população não conta com ginecologista, pediatra e clínico geral, apenas  com serviços de enfermagem (Foto: Paulo Rossi/DP) (Foto: Paulo Rossi - DP)

A fachada do posto de puericultura, na rua João Pessoa, zona do Porto de Pelotas; na unidade, os atendimentos estariam normalizados, divididos entre pré-natal e pré-câncer; à tarde, no entanto, população não conta com ginecologista, pediatra e clínico geral, apenas com serviços de enfermagem (Foto: Paulo Rossi/DP) (Foto: Paulo Rossi - DP)

A falta de profissionais na rede básica de saúde de Pelotas tem comprometido o atendimento de dois serviços prioritários: o pré-natal e o pré-câncer de colo de útero.

Em pelo menos sete das 12 Unidades Básicas de Saúde (UBSs) que não contam com o programa federal Estratégia Saúde da Família (ESF), ao invés de acolhimento para as consultas, as mulheres têm ouvido repetidos “nãos”. Em três locais - Jardim de Allah, Balsa e Cascata - o cenário é ainda pior: nenhum dos dois serviços é oferecido. E, como de praxe no Sistema Único de Saúde (SUS), os cartazes afixados em portas, recepções e paredes anunciam o alerta à comunidade.

Nos últimos dias, o Diário Popular esteve nas 12 UBSs e ouviu servidores e usuários. De um lado, trabalhadores amarrados pela falta de estrutura. De outro, pacientes desanimadas pela incerteza de que receberão o atendimento, ainda que encaminhadas a outros espaços da rede pública. E mais: nem sempre dispõem de dinheiro para peregrinar de um ponto a outro, principalmente, quando são moradoras da área rural e a referência indicada fica na zona urbana.

A posição da prefeitura
A diretora de Ações em Saúde, Eliedes Ribeiro, admite a falta de pessoal, agravada pelos pedidos de aposentadoria que surgem na carona da Reforma da Previdência que está por vir.

A estimativa é de que o déficit chegue a cerca de 20 médicos, entre ginecologistas e clínicos gerais; contabilizadas apenas as 12 UBSs. “Estamos sempre nessa luta. No que a gente consegue repor uma vaga, um outro pede para sair. Sem falar nos que passam em outros concursos públicos”, ressalta.

Duas medidas, entretanto, foram definidas para amenizar a situação. As grávidas têm sido encaminhadas a outras UBSs. No caso das pacientes do Jardim de Allah, nas Três Vendas, por exemplo, a referência é a UBS da Cohab Lindoia. A saída para reduzir os transtornos de quem aguarda pelo pré-câncer de colo de útero será a capacitação dos enfermeiros - adianta Eliedes. Mas admite que a solução não será imediata; deverá levar em torno de um mês e meio para ser implementada, já que novos profissionais irão ingressar na rede.

Vagas e escassez
Os médicos interessados em compor as equipes das UBSs devem procurar a Secretaria de Saúde. Há vagas para plantonistas. O valor da hora trabalhada está fixado em R$ 35,00. Afinal, a expectativa do Executivo de suprir o déficit através de concurso público acabou frustrada. Das 30 vagas abertas, apenas 26 candidatos se inscreveram. Só 18 realizaram as provas e o pior: somente seis médicos foram aprovados. A solução, portanto, foi remediada. E a comunidade, mais uma vez, terá de amargar a espera.

Conheça o panorama nas 12 UBSs 
- Sem pré-natal nem pré-câncer
* Jardim de Allah - Os avisos estão afixados na porta e no guichê: Suspensa coleta de pré-câncer por tempo indeterminado. Sem ginecologista obstetra na equipe há quase dois anos, na Unidade Básica de Saúde (UBS) do final da avenida Fernando Osório não são apenas os atendimentos de saúde da mulher que deixam de ser realizados. Todos os casos de pré-natal também têm sido direcionados a outros espaços da rede.
Com uma enfermeira disponível apenas duas vezes por semana, a possibilidade de absorver o público feminino para exames preventivos foi descartada e as coletas interrompidas.

A voz da comunidade
A jovem Eduarda Leite, 25, preparava-se para iniciar a peregrinação em busca da primeira consulta de pré-natal, na última segunda-feira, às 9h15min. "Tô saindo neste momento para procurar um médico que possa me atender", contou. E fez questão de lembrar: na gestação do primogênito José Alfredo, hoje com um ano e oito meses de idade, também não conseguiu fazer o acompanhamento na UBS perto de casa, no Sítio Floresta, onde morava. Agora, superado o susto da confirmação da gravidez, Eduarda teria de enfrentar a mesma incerteza.

* Balsa - A cena se repete entre as moradoras da zona da Balsa. Não há realização de pré-câncer nem de pré-natal. O clínico geral, que passou a integrar a equipe há pouco, encaminha as pacientes a locais, como o Centro de Especialidades. O nome da médica ginecologista que atuava na UBS - até se exonerar há cerca de três anos - ainda consta em um antigo cartaz na parede, com as escalas dos profissionais. Engana-se quem pensa que as informações procedem.

A voz da comunidade
A moradora Michele Ribeiro, 33, admite: cansou de esperar solução. Passou a desembolsar R$ 100,00 por consulta mais R$ 35,00 pelo exame, para garantir que estaria em dia com o citopatológico. "Mas isso é muito triste, porque eu tive condições de pagar, mas tem muita gente que não pode. E aí, como fica?", preocupa-se. E acompanha dramas, como o da vizinha Loiva Gonçalves, 52, que já fez exame de urina, não apareceu nenhuma infecção, mas segue com dores. "Tô preocupada", afirma a dona de casa, orientada a procurar o Centro de Especialidades.

Cascata - As moradoras do 5º distrito também estão desassistidas. Se procurarem a UBS Cascata, tanto as gestantes quanto as mulheres que buscam manter os exames de rotina em dia, sairão de lá com encaminhamento para outros locais da rede; possivelmente o Centro de Especialidades, na zona urbana. À tarde, a médica está prestes a se aposentar. Pela manhã, o enfermeiro de prontidão não conta nem com ginecologista nem com clínico geral, para que as pacientes possam sair de lá com a prescrição de algum eventual tratamento. O jeito, então, foi deixar de atender pré-natal e Saúde da Mulher.

A voz da comunidade
A moradora Marlene Kaster, 68, lamenta a equipe reduzida e admite: "Já nos avisaram que se a gente não se movimentar, vamos ficar sem mais uma médica, quando ela se aposentar", preocupa-se. A professora Liane Giesel, 40, engrossa o coro do descontentamento e afirma: "Acho que muita gente já nem procura este posto". Quem teve condições financeiras, migrou para os planos de saúde - garante.

- Prioridade ao pré-natal
PAM-Fragata - A ressalva também está na porta de entrada: Não estão saindo fichas para ginecologista! Motivo: agenda lotada com gestantes. Sozinha, a médica não tem conseguido dar conta das duas demandas. A orientação, portanto, é de priorizar o pré-natal.

Na tarde da sexta-feira, 5 de maio, quando o DP circulava pelas UBSs, havia um motivo a mais para descontentamento de quem procurava a unidade da avenida Pinheiro Machado: não havia enfermeiro para aplicar vacinas.

A voz da comunidade
A dona de casa Maria Conceição Teixeira, 60, não esconde: prefere não procurar o PAM-Fragata. "Quase não vou. Já desisti. Prefiro não ir pra não me estressar." A estratégia tem sido recorrer aos médicos vinculados à Associação Beneficente dos Aposentados e Pensionistas de Pelotas.

Fraget - A prioridade é a mesma: pré-natal. Os atendimentos estão concentrados no turno da manhã. Na sexta-feira, 5 de maio, quando o DP esteve na UBS, a coleta de pré-câncer estava anunciada para quinta-feira, com direito a três fichas com uma enfermeira.

Cohab Lindoia - A regra também se aplica: a prioridade nos atendimentos com ginecologista - restritos ao turno da tarde - é para o pré-natal. As mulheres que necessitam de pré-câncer sabem bem.

A voz da comunidade
É o caso da moradora Tanize Oliveira Barreto, 38, que conversa com o Diário Popular, mas prefere não mostrar o rosto. "É difícil. Muitas vezes, a gente vem aqui e não consegue." A alternativa, de novo, deverá ser a mesma: procurar o Campus Saúde Doutor Franklin Olivé Leite da Universidade Católica de Pelotas (UCPel) - conta a dona de casa.

Santa Silvana - As portas estão abertas, mas a população do 6º distrito de Pelotas já sabe: se for de manhã, não há atendimento médico na UBS. Só há clínico geral à tarde. Pediatra e ginecologista também não fazem parte do grupo; não importa o turno. Até o momento, entretanto, os atendimentos de pré-natal estão mantidos. As solicitações de pré-câncer são encaminhadas à UBS da Colônia Osório, no 4º distrito, que, embora possua o Programa Estratégia Saúde da Família (ESF) estaria absorvendo mulheres de outras localidades.

- Dentro da normalidade
Salgado Filho - A retaguarda às gestantes é prioritário, mas os atendimentos de Saúde da Mulher também estariam sendo realizados, já que a UBS conta com dois médicos ginecologistas. Na prática, entretanto, há quem reclame da demora.

A voz da comunidade
É o caso da vendedora Fernanda Vasconcelos, 35, que há mais de um mês está envolvida em combater uma infecção urinária. O primeiro desafio foi ter o diagnóstico em mãos e, para isso, precisou pagar R$ 43,00 pelo exame e recorrer ao Pronto Atendimento da UCPel. "Estava com muita dor e não podia ficar esperando. Voltei no postinho mais de uma vez e, como estava naquele período de feriadões, fui até lá e não conseguia encontrar o médico", reclama. Agora, a próxima etapa será verificar se o tratamento realizado foi suficiente para eliminar a infecção.

Puericultura - Pela manhã, os atendimentos estariam normalizados, divididos entre pré-natal e pré-câncer. À tarde, em contrapartida, não há nenhum suporte médico na UBS. Sem ginecologista, pediatra e sem o clínico geral, que se aposentou, a comunidade conta apenas com serviços de enfermagem.

Cruzeiro - Na Unidade Milton Moraes a equipe estaria sendo suficiente para demanda dos dois tipos de atendimento. A presença de pacientes não só do bairro Areal, mas também da Colônia de Pescadores Z-3 e do Fragata, ajudaria a comprovar os bons resultados - argumenta um dos servidores.

Areal Fundos e CSU Areal - As Unidades, sob gestão da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), estão com os dois serviços em dia: pré-natal e pré-câncer. Como espaços de ensino, equipes para atendimento à comunidade não são problema. Há acadêmicos sob supervisão de professores. Planilhas, no computador, inclusive acusam quando é hora de fazer busca ativa às pacientes que já deveriam ter comparecido para consulta - explica a enfermeira Franciene da Rocha Brito.

A intenção é de que, em breve, as duas UBSs passem a atuar, oficialmente, através do ESF. Atualmente, o sistema com programas de agentes comunitários e médicos de família e comunidade já é desenvolvido.

 


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