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O último beijo

Com temática LGBT, The pass oferece três episódios íntimos na vida de dois jogadores de futebol

05 de Agosto de 2017 - 20h00 Corrigir A + A -
Drama britânico é estrelado por Russell Tovey, do seriado Looking (Foto: Divulgação - DP)

Drama britânico é estrelado por Russell Tovey, do seriado Looking (Foto: Divulgação - DP)

É véspera de um jogo importante e dois atletas aguardam o “grande dia” descansando num quarto de hotel. A intimidade desenvolvida enquanto parceiros ao longo de vários anos jogando no mesmo time possibilita que eles se encontrem conversando apenas de cueca no interior daquelas quatro paredes. São dois caras bonitos, com pouca roupa, no auge da juventude, excitados com o futuro. A tensão sexual é pulsante na abertura do filme britânico The pass, baseado na peça teatral de John Donnelly.

Essa despretensiosa conversa transcorre durante os 23 minutos iniciais do longa-metragem. Uma noite que, assim como a partida futebolística do dia seguinte, será decisiva para os personagens. Eles seguem caminhos diferentes, lidando com a descoberta da homossexualidade e o sentimento que nutrem um pelo outro.

The pass apresenta uma estrutura claramente definida em três atos, como se fossem três grandes cenas no interior de quartos de hotel (apesar do segundo ser no apartamento de um personagem). O intervalo entre cada sequência é de cinco anos, revelando gradativamente o que se sucedeu com cada um dos envolvidos.

Por ser tão íntima, a trama do filme acaba sustentada pelas atuações. Russell Tovey, do excelente seriado Looking (HBO), fez parte do elenco da montagem teatral e, mesmo familiarizado com o texto, transparece na tela as duras transformações de seu personagem, mostrando o quanto devastador pode ser ficar no armário.

Por outro lado, Arinze Kene oferece a leveza de ter aceitado uma vida simples que lhe permite ser livre. Apesar de abandonar seu sonho, ele não se tornou alguém amargurado com suas escolhas e demonstra, através de gestos e olhares, sua preocupação e carinho pelo colega e, talvez, primeiro amor.

A produção independente dirigida pelo estreante Ben A. Williams não consegue fugir do caráter teatral, principalmente em sua formação capitular, mas encontra um dinamismo eficaz ao gravar longas sequências dentro de um mesmo ambiente. Desta forma, oferece um cuidadoso mise-en-scene atravessado por diálogos bastante reais, junto a uma interessante construção de personagens.

O apelo sexual do projeto é evidente, visto que os rapazes se encontram anos depois e logo tiram a camisa - algo típico na filmografia LGBT. Ainda assim, busca-se justificar a decisão uma vez que os corpos constantemente desnudos reforçam o desejo latente entre a dupla.

Mais que um romance, The pass também aborda questões contemporâneas como a homossexualidade no esporte e ainda questiona o cerco de aparências em que vivemos. Como diz um dos protagonistas, “o mundo é cheio de pessoas fingindo ser algo que não são”. Ao menos, o filme não finge nada. Entrega desde o princípio que é simples e delicado, revelando ser uma boa surpresa de 2017.

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