Estilo
Crônica

Arpejo

12 de Agosto de 2017 - 06h00 Corrigir A + A -

Andavam sempre de mãos dadas, o pai e a filha. Quer dizer, não sempre, óbvio que quando ela contraiu adolescência diminuiu. Ele soube respeitar, entendeu que não seria eterna aquela distância, a mão mais velha coçando de saudades da outra. E a mais nova realmente voltou, deu saudades dos dedos duros, mas macios de proteção. Não havia como ficar longe, era como ímã.

Em certo momento, se soltaram de novo. A filha, e podemos chamá-la de Natália, preferiu sempre o Homem de Ferro à Barbie, o futebol à casinha de bonecas, o dinossauro à fada, enfim, o raaaw ao ai. O pai, talvez um Alfredo, estranhava, mas mantinha-se reservado. Cresceu a neurose quando Natália cortou Joãozinho e pediu guitarra. Pronto. Virou lésbica. Lésbica não se vira, lésbica se é, Alfredo. Pai, eu não sou lésbica, quer dizer, acho que não, só quero tocar guitarra! Você não tocava ?Tocava. Cabelos longos que reproduziam Doors, Who.

Não adiantou a lembrança. Pois então eu compro, falou Natália e, bem, aí nada pode Alfredo fazer.

A implicância durou até um domingo à tarde. Em frente à TV que falava bobagem, Alfredo se viu batucando com o controle no sofá. Reconheceu. Baba o’Rilley. Tã. Tadã. Gostou. Enfim percebeu que a filha sentia a mesma alegria que ele ao tirar uma música favorita. Até os mesmos calos nas mãos, de tanto praticar, ela tinha, reparou no almoço seguinte.

Orgulhoso, não admitiu o orgulho, mas passou a ouvir a filha tocando. Descobriu, assim por debaixo dos panos, que sexta tinha show. Galpão do Rock. Foi. Chegou, ficou num canto e focou na música. Esse baterista é bom, pensou. O baixista também. Nenhum melhor que a filha, gabou-se, enfim. O público ao lado, porém, descordou. Menina não toca guitarra, não tem força nos dedos, disse um.

Alfredo aguentou cinco minutos, olha que paciência, até partir para a ignorância. Quando chegou a a turma do deixa disso, porém, já tinha apanhado um bocado, ao que teve de ir ao hospital. Acordou com carinho na mão.

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