Estilo
Crônica

Meu pai

12 de Agosto de 2017 - 06h00 Corrigir A + A -

Por Maria Alice Estrella
malicestrella@yahoo.com.br


Ele sabia, antes do meu nascimento, que eu seria uma menina. Escolheu meu nome e o escreveu numa dedicatória de livro para a minha mãe. Imaginava exatamente como eu seria: lourinha com olhos verdes. E acertou.

Esse texto vai ser escrito entre lágrimas, interrompido pela emoção de lembranças e sorrisos, de orgulho, de júbilo, de exercício de despir a pele da alma para retratar a figura de um homem especial.

Tive o privilégio de ser filha de um grande homem, malgrado sua estatura física ser mediana. O incomum era o tamanho da alma que aquele corpo conduzia. Afora isso seu rosto era dotado de uma beleza indiscutível. Daquelas que chegam a incomodar por chamarem tanto a atenção na rua, na chuva, no meio do nada, no centro de tudo.

Ele, simplesmente, lidava com esse detalhe de maneira altruísta e nobre. Chegava até a surpreender-se ao ser admirado.

Sua capacidade de comunicação era marca registrada aliada a um senso de humor oportuno e inteligente. Carismático na acepção completa do adjetivo cativava a todos com um sorriso que só surgia em alguns momentos. Na maior parte do tempo era silencioso e extremamente quieto.

Porém quando ria enchia o ambiente com alegria despejada como cascata de águas. Ainda ouço o som da sua risada, ecoando na minha própria risada. Afinal, “quem sai aos seus não degenera”.

A sensibilidade nele era tão indisfarçavelmente intensa que vez ou outra eu a vi saindo pelos poros, pelos olhos, desenvolta em gestos ou silêncios.

Seus princípios, seus valores fizeram dele uma pessoa admirada e destacada entre familiares, amigos, colegas de profissão. Cresceu dando “murro em ponta de faca”, valente guerreiro nunca desistiu de enfrentar revezes, de voltar à tona dos naufrágios, de cruzar raios e trovões pelos céus do mundo afora.

Com esse pai exemplar criei ao longo da vida laços de aço. Desde recém-nascida, quando eu adormecia no seu colo até o instante em que eu o abracei por fim. Trajetória plena de ensinamentos dados com sabedoria e aceitos com reconhecimento. Aproveito cada um deles na minha missão de ser mãe, de ser mulher e de ser gente.

A saudade é dose maciça de aperto no peito. Ele partiu para mais além com apenas 56 anos. Em plena atividade como piloto de aviões em rotas internacionais, quis a ironia do destino que um acidente de carro numa rua escura arrancasse dele a energia e o vigor com um golpe certeiro.

Eu sabia que o pranto iria me acompanhar, embaçando a tela do computador. Dito e feito.

Mas respiro fundo entre um soluço e outro e sigo em frente. Lágrima de saudade é quente. Aquece por fora o trajeto do que extravasa da emoção interior.

Consigo aquilatar o quanto fui esperada e amada. Quanto lhe doeu sentir as minhas dores. Quantas noites em claro ele velou meu sono. Quanta angústia sofreu por tentar salvar-me dos desencantos. Quanto lhe custou repreender, cobrar, exigir, nortear, amoldar-me à realidade crua da vida sem poder me defender de todos os perigos. Quanto trabalhou para o meu sustento e educação.

Sou fruto do que meu pai semeou. Sou decorrência direta e transparente do que germinou de alma para alma. Sou o reflexo dele no espelho em que me vejo. Agraciada, sem dúvida, pela benção de ser fiel a origens de um guerreiro valente.

Vejo, gratificada, que a frase de Cícero se aplica aqui como arremate coerente: “A vida dos mortos perdura na memória dos vivos”.

Só posso te abraçar no invisível e intangível do espaço, mas sei que continuas a acompanhar meus passos, parceiro, guarda-costas e amigo.

Privilégio dos privilégios foi ser tua filha, Afonsinho!

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