Estilo
Crônica

Do trompete

09 de Setembro de 2017 - 06h00 Corrigir A + A -

Nove da manhã de 1º de setembro. Chuva. Frio. Eduardo não é Eduardo. É Villa, recruta da Banda da Brigada Militar, que segura um trompete nas mãos há uma hora e meia naa cerimônia de acendimento da Pira, no Altar da Pátria, representando o ardor pelo civismo, pelo patriotismo. A solenidade atrasa em meia hora. E Villa segue em pé. Não quer se abaixar, descansar, vai que percebam.

Na infância, ainda Eduardo, brincava nas ruas do Pestano, pés tocando direto o chão batido até altas horas. Aí a mãe, Catarina, chamava, ele ficava, a mãe gritava, Eduardo subia, comia pirão e ia dormir. Aos 15 passou a obedecer menos: os gritos não adiantavam e ele anoitecia ouvindo música e tomando cachaça e Fanta Uva com os amigos.

Aos 18, Catarina, mãe solteira, sentenciou: o filho tentaria o Exército. Buscava maior fôlego no orçamento familiar, criação de responsabilidade na cria e liberdade em casa.

Eduardo se dirigiu à seleção com pequena esperança de não entrar. Teste após teste, entretanto, ia sendo aprovado com louvor, talvez os milicos tenham entendido a jogada, talvez tivessem sentido ali um dom escondido.

O fato é: ao virar Villa, Eduardo já se desesperara, imaginando um ano inteiro de rotina disciplinada até que pensou rápido, até surpreendeu a rapidez: a banda. O oficial perguntou se tocava algo e respondeu que sim, tão íntimo do trompete quanto do inverno nórdico. Aí foi aquela loucura, aprendeu pela internet a tocar mesmo não tendo trompete, loucura o que um computador ensina, e, no dia do teste, fez bonito.

Aí foram nove meses intercalando formação de soldado - a marcha, o banho gelado, a flexão - e ensaios até chegar no dia 1º de setembro. Cansado de ficar em pé e de tocar hino, Villa improvisou solo de trompete, ao que recebeu os primeiros olhares tortos. Nem ligou. Os colegas começaram com pontapés. Nada. Confrontado, partiu para o funk. De Glamurosa a MC Colibri. Expulso, Eduardo finalmente sorriu.

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