Estilo
Crônica

Tô aqui pensando

09 de Setembro de 2017 - 06h00 Corrigir A + A -

Por Lisiani Rotta - lisirotta@hotmail.com.br

Quando comparamos a nossa geração com a dos nossos filhos, precisamos lembrar que nós nascemos à fórceps e eles de cesariana. As revoluções que vivemos nos tornaram mais tolerantes do que os nossos pais, e, talvez, do que os nossos filhos, quando assumirem o nosso papel. Lembro de como me irritavam os conceitos prontos, as regras e o controle dos pais da minha juventude. Meus pais, que eram considerados liberais, costumavam dizer que nada de bom restava na rua depois de determinada hora. Apenas bêbados e confusões. Eu achava isso o ó. Como podiam generalizar desta maneira? Como podiam adivinhar as noites que não aconteceram? Os amigos que ficavam até mais tarde sempre tinham as melhores histórias, e eu, na melhor hora tinha de voltar pra casa como uma princesinha. Tudo o que eu não queria. Durante a semana tínhamos quem nos ajudasse, mas nos finais de semana não podíamos sair do quarto antes de arrumar as camas. Quando os armários não estavam organizados, minha mãe tirava tudo de dentro e nos fazia arrumá-los. Na infância isso não me incomodava, mas na adolescência me deixava louca. Por que eu não podia arrumar o meu quarto como e quando eu quisesse?

- O quarto não é só teu, Lisi. Respeita a tua irmã!

Quando, enfim, tive um quarto só meu.

- O quarto é teu, mas está na nossa casa. Não vamos conviver com bagunça, e nem alimentar a tua preguiça.

Quando realizei o sonho de morar sozinha já não conseguia sair do quarto sem deixar a cama arrumada.
Hoje quando peço aos meus filhos que estendam as camas, eu ouço:

- Por que, mãe? Eu amo uma cama bagunçadinha! Será que nem no domingo eu posso curtir o meu quarto do jeito que eu gosto?

- E eu faço o que, com o gosto adquirido pela ordem? Fecho os olhos, ao passar pelos quartos de vocês?

-Trata que é TOC!

- Será???

- Com certeza.

- Eu sabia que aquele adestramento todo ia acabar me deixando maluca!

- Nunca é tarde pra se rever os conceitos, mãe!

- Há tanta coisa pra reprogramar que eu tenho medo de não alcançar a atualização necessária.

- Essa é fácil. Relaxa! É domingo! Dia da bagunça!

Eles tinham razão. Isso fez a minha segunda ter um sabor especial!

A educação que recebemos poupava os pais. A que demos, poupa os filhos. As imposições deram lugar às negociações. Somos muito mais flexíveis e tolerantes. Somos muito mais próximos, parceiros, íntimos. Nossos filhos têm a liberdade que sonhamos. Continua sendo nosso o esforço, continua sendo nossa a paciência, continua sendo nossa a tolerância para manter a convivência leve e agradável em casa.

Sem dúvida, somos seres mais adaptáveis. Jamais paramos de nos questionar, nossa mente se mantém aberta, continuamos em transformação. Torço para que nossos filhos se saiam tão bem. Hoje não é dia dos pais, nem das mães, mas quero deixar meu beijo de solidariedade para os pais da nossa geração. Somos heróis! Meus pais são uns queridos, mas não consigo nem imaginar uma conversa com eles, como algumas das que tive com os meus filhos. A maior parte das amigas com quem converso tem a mesma preocupação. Manter a mente aberta, a espinha ereta e o coração tranquilo. É um exorcismo diário, mas a gente é anos 80, a gente consegue! Espero que os nossos filhos entendam, como nós, o significado da palavra empatia.

Comentários Comente

REDES SOCIAIS

Diário Popular - Todos os direitos reservados