Estilo
Crônica

Das dificuldades

09 de Setembro de 2017 - 06h00 Corrigir A + A -

Por Maria Alice Estrella - malicestrella@yahoo.com.br

A dificuldade maior, para conseguir expressar na escrita o que surge nos pensamentos, é a falta de hábito de interpretar. Esclarecer em palavras o que se encadeia no pensamento em frases impalpáveis.

Nas escolas ensinam gramática em todas as suas ramificações que se delineiam em verdadeiros labirintos, pois, a Língua Portuguesa não é nada fácil e exige de seus aprendizes um esforço razoável. Concordâncias nominais e verbais ainda são os algozes assustadores da maioria dos que falam e escrevem.

Quando, então, se fala em redação, um murmúrio nervoso é ouvido em qualquer recinto.
De onde vem esse medo, esse impedimento, esse embaraço? Por que é tão difícil manifestar através da redação, o que se tem em mente?

A impressão que tenho, divagando sobre o assunto, é de que falta esmiuçar os textos literários e científicos. Para tanto, necessário se faz que, desde tenra idade, sejam ministradas aulas de interpretação das palavras, sejam adjetivos, substantivos, verbos, preposições, artigos.

Por incrível que pareça isso exige um mergulho profundo nas emoções e nos pensamentos, na teoria e na prática.

Mexer com emoções e ideias é tarefa de que ninguém escapa ileso. E, por tal razão, se evita adentrar por essas vias, onde a alma fica desnuda e a emoção se torna passível ao tato.

A interpretação está para o idioma assim como o raciocínio está para a Matemática. Vinculados a toda e qualquer situação. Interpretar. Traduzir a linguagem textual. Explicar a expressão enigmática. Decifrar o código submerso. Esclarecer o pensamento do escritor. Esmiuçar o sentimento alheio e descobrir o seu próprio sentimento na garimpagem das palavras impressas.

No meu caso, tive várias professoras que, durante anos e com muita dedicação, proporcionaram viagens incríveis ao mundo das letras. Fui passageira atenta. De espectadora, me transformei em intérprete.
Dirás que eram outros tempos. E serei obrigada a discordar.

O conhecimento é idêntico, facilitado, inclusive, pelo progresso das comunicações. As enciclopédias estão on-line. O universo virtual coloca facilmente tudo ao alcance de um simples toque em variáveis teclas.
A mudança que ocorreu, “daqueles tempos” para a atualidade, é o enfoque do ensino. Instruir no ofício de interpretar textos exige uma dinâmica que é pouco usada, penso eu.

Entendo que é uma Odisseia e uma Ilíada, enveredar pelas letras ao interpretá-las, mas a finalidade é burilar a escrita. É mostrar o caminho com a bússola em uma das mãos e, na outra, uma lamparina acesa, iluminando a escuridão. Há muita luz no fim do túnel.

Sei de muitos que desejam aprender a escrever para expressar o que pensam e o que sentem (a maioria escreve e coleciona em gavetas inexpugnáveis as linhas que traçam). E sei, também, como desvendar o segredo, sem pretensão alguma. Apenas, conheço a estrada e suas curvas e precipícios. Viajei por muitas paragens nesse mundo literário. E a paisagem, até onde a visão alcança, é um prazer inigualável ao ser vivenciado.

Ensinar a interpretar o mapa do tesouro da Língua Portuguesa propicia um repartir de riquezas inestimáveis.
Os que escrevem “buscam palavras que não conhecem e, também, buscam palavras que conhecem e que foram perdidas”. (Eduardo Galeano)

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