Estilo
Crônica

Interrogação ou ponto final?

11 de Novembro de 2017 - 06h00 Corrigir A + A -

Por Lisiani Rotta - lisirotta@hotmail.com.br

Ainda sob efeito de Crer ou não crer, lembrei de outros livros que discutem a crença e o ateísmo e fiquei aqui pensando no quão geniais são os grandes autores, capazes de recriar de forma única, de produzir sobre os velhos assuntos, novas e inesperadas leituras. A maioria de nós, leitores, tem os seus autores preferidos.

Aqueles que nos falam diretamente à alma, que provocam uma identificação imediata, que nos fazem engolir as páginas e lamentar o final do livro. Aqueles capazes de contar as histórias mais excitantes, de criar os personagens mais apaixonantes, de nos encantar ou desacomodar de forma singular. Há autores que nos tocam de uma forma especial.

Eça de Queiroz, autor de Os Maias, 1888, um dos meus preferidos, criou o personagem Afonso da Maia, ateu convicto, que diz ao abade quando ele insiste em ensinar o catecismo a seu amado neto Carlos Eduardo: “- Então o que lhe ensinava você, abade, se eu lhe entregasse o rapaz? Que não se deve roubar o dinheiro das algibeiras, nem mentir, nem maltratar os inferiores, porque isso é contra os mandamentos da lei de Deus, e leva ao inferno, hem? É isso?... Bem sei. Mas tudo isso que você lhe ensinaria que não se deve fazer, por ser um pecado que ofende a Deus, já ele sabe que não se deve praticar, porque é indigno de um cavalheiro e de um homem de bem. Ouça, abade. Toda a diferença é essa. Eu quero que o rapaz seja virtuoso por amor à virtude e honrado por amor à honra; mas não por medo às caldeiras de Pêro Botelho, nem com o engodo de ir para o Reino do Céu...”

Já Dostoiévski, no romance Os irmãos Karamazov, 1879, diz: “Se Deus não existe e a alma é mortal, tudo é permitido”.

Richard Dawkins em Deus é um delírio é menos questionador. Faz um apelo apaixonado contra a doutrinação de crianças em qualquer religião. Considera que se referir a uma criança como “uma criança católica”, “uma criança judia”, “uma criança muçulmana”, já é por si só um abuso contra a inocência infantil. Considera isso um dos males mais preocupantes da atualidade. “Ser ateu não é incompatível com bons princípios morais e com a apreciação da beleza do mundo”.

Gosto de pensar sobre isso. No quão importante é mergulhar no universo dos grandes autores para entender o que nos diz a nossa própria alma sobre crer ou não crer. Uma questão discutida a séculos, razão de preconceito, perseguições, torturas e mortes, e, no entanto, algo tão íntimo e pessoal. Talvez, se as religiões fossem menos radicais, mais flexíveis e tolerantes, as pessoas também o seriam. Talvez, devêssemos estimular os filhos a conhecerem os fundamentos de todas as religiões e permitir que eles próprios façam a sua escolha, ou não, na maioridade.

Talvez, o mundo precise de mais Padres Fábios de Melo e menos religiões, mais espiritualidade e menos radicalismo. Talvez, devêssemos falar mais de amor, respeito, honestidade e compaixão, e menos de preconceito, desdém e discórdia. Talvez, as dúvidas nos façam mais bem do que as certezas. Talvez não haja respostas. Seja como for, eu prefiro a interrogação ao ponto final.

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