Estilo
45ª Feira do Livro

O lugar da cultura

Bibliotheca Pública Pelotense, novo livro de Klécio Santos, preserva a história do imponente prédio

11 de Novembro de 2017 - 12h00 Corrigir A + A -
BPP somente foi ampliada, passando a contar com um 
segundo piso, em 1915 (Foto: Paulo Rossi - DP)

BPP somente foi ampliada, passando a contar com um segundo piso, em 1915 (Foto: Paulo Rossi - DP)

 (Foto: Paulo Rossi - DP)

(Foto: Paulo Rossi - DP)

Jornalista foi escolhido como patrono da 45ª Feira do Livro de Pelotas. (Foto: Paulo Rossi - DP)

Jornalista foi escolhido como patrono da 45ª Feira do Livro de Pelotas. (Foto: Paulo Rossi - DP)

Lançamento ocorre terça-feira no salão nobre da casa . (Foto: Paulo Rossi - DP)

Lançamento ocorre terça-feira no salão nobre da casa . (Foto: Paulo Rossi - DP)

A trilogia se completa: Theatro Sete de Abril, Mercado Central e Bibliotheca Pública Pelotense. Os três mais importantes prédios de Pelotas contam, agora, com uma respectiva obra assinada por Klécio Santos. A publicação derradeira, que relata os acontecimentos mais relevantes da “casa dos livros”, será lançada nesta terça-feira, às 19h, no Salão Nobre da própria Bibliotheca, integrando a programação da 45ª Feira do Livro.

A cidade, segundo Klécio, pode ser compreendida através desses três locais, principalmente quanto à fama de ser culta, um palco de grandes artistas. Em Bibliotheca Pública Pelotense (Fructos do Paiz, R$ 60,00), o jornalista e escritor dedicou-se a resgatar as memórias do imponente casarão da Coronel Pedro Osório que, para além de um abrigo de livros, revelou-se um centro cultural onde a história de Pelotas se desenhou.

Viabilizado através de Lei de Incentivo à Cultura, com patrocínio da Celulose Riograndense e Company Tec, este é o livro de maior capricho estético entre os anteriormente lançados. A escrita divide-se em vários subtítulos, que tornam a leitura dinâmica, sempre acompanhada de um farto material iconográfico organizado pela Nativu Design. “É um livro de luxo”, define o autor.

A versão definitiva
A proposta de escrever sobre a história do prédio surgiu a partir de um convite da presidente da instituição, Lisarb Crespo da Costa. Seu objetivo era homenagear os 140 anos da Bibliotheca Pública Pelotense (BPP), completados em 2015, com a realização de um livro oficial. “Alguém ia escrever - e eu não poderia recusar”, comenta Klécio.

Durante muitas décadas, artigos científicos, matérias jornalísticas e breves históricos tentaram dar conta da trajetória da casa, mas faltava uma publicação que reunisse esse conjunto de informações dispersas, aprofundando-se em certos acontecimentos desta longa e intrigante trajetória.

Desde que aceitou o convite, há quase três anos, o escritor conta que dedicou praticamente todos os finais de semana ao projeto. Já no primeiro capítulo, referente às reuniões iniciais dos sócios, é possível perceber que a pesquisa foi bastante minuciosa. Na opinião do autor, o texto é rico em detalhes. São os fatos curiosos e os pequenos adendos que constituem a marca do escritor e jornalista.

Em se tratando de preciosidades históricas, a narrativa destaca a disputa entre dois arquitetos pelo projeto de construção da BPP. Embora o italiano José Isella tenha vencido o “duelo de pranchetas”, como chama Klécio, optou-se por contar sobre a vida dos dois concorrentes, inclusive a respeito do perdedor, o francês Dominique Pineau. “Não falo apenas dos vencedores. O próprio Pineau, depois, vai construir o prédio do Lyceu, cujo terreno foi cedido pela Biblioteca para a Escola de Agronomia”, conta.

Também entre as passagens evidenciadas por Klécio estão a vinda do violinista do rei e da rainha dos Países Baixos, Johannes Wolff; o rapto de um livro raro, Brazil Pitoresco, de Charles Ribeyrolles; o velório de Cassiano do Nascimento; a visita de Fernando Henrique Cardoso durante suas pesquisas para tese que gerou o livro Capitalismo e escravidão no Brasil Meridional; e o museu repleto de raridades pertencentes à casa.

Cruzamentos
Depois de escrever sobre outros dois prédios importantes da cidade, Sete de abril - O teatro do imperador (2012) e Mercado Central (2014), Klécio constatou o quanto as histórias desses locais se entrelaçam. É o caso dos bailes de Carnaval que ocorriam tanto no Sete de Abril quanto na Bibliotheca.

A curiosidade desta constituição é que a folia apresentava caráter popular no teatro enquanto a realizada na casa dos livros era destinada para a elite pelotense. “Pela lógica seria o contrário”, analisa. Outro exemplo é a primeira exibição fílmica da cidade, que aconteceu na BPP, sendo posteriormente mantida com regularidade no Sete.

“A atividade cultural em Pelotas era tão intensa que era preciso se dividir entre as duas casas culturais. Até a própria Princesa Isabel quando veio à cidade passou pelos dois locais numa mesma noite”, comenta Klécio. Assim como a Paris de Hemingway, Pelotas, no século 19, era uma festa. Entre doces e licores, a BPP recebia concertos, saraus, bailes, quermesses e conferências.

Nas artes plásticas, Leopoldo Gotuzzo realizou umas das suas primeiras exposições na BPP. Tinha 16 anos. Na música, a pianista Magdalena Tagliaferro se apresentou aos 13 anos no Sete de Abril e voltou a Pelotas, já consagrada, para uma apresentação na Bibliotheca. O local também recebeu um dos maiores violonistas da época, o espanhol Andrés Segovia.

Papel social
Em suas páginas, o livro acompanha, principalmente, as pessoas que faziam parte da gênese da Bibliotheca, uma elite intelectual que construiu e circundou o prédio durante as primeiras décadas. Em seu interior foram criadas diversas sociedades literárias e, inclusive, o Club Beethoven, projeto que ditou os rumos da música clássica na cidade durante seis anos.

O clube consistia na realização de concertos em prol de entidades locais. Tinha como regente o maestro Manuel Acosta y Oliveira, que musicou peças de João Simões Lopes Neto. “Os barões que promoviam a degola dos bois nas charqueadas eram amantes da erudição”, escreve Klécio.

No mesmo período, além dos saraus e espetáculos, a BPP adquire um papel que extrapola o cultural com a realização de cursos noturnos, nos quais pessoas de baixa renda eram alfabetizadas, e também com a criação do Club Abolicionista, pioneiro em toda Província no incentivo à libertação dos escravos. Sessões de alforria, inclusive, foram realizadas na Biblioteca.

Mesmo com cerca de 16 mil habitantes, Pelotas era uma das principais cidades do país. O que ocorria aqui repercutia para muitos outros estados brasileiros. “Era um tanto interiorana, mas de hábitos refinados”, define o escritor. Definitivamente, a Bibliotheca Pública Pelotense coroou a fama cultural do município.

Condução do material
Assim como nos projetos anteriores, a pesquisa histórica é creditada ao escritor e livreiro Adão Monquelat. Klécio explica que a primeira busca é realizada pelo estudioso amigo e depois, conforme seus interesses, são aprofundados temas e personagens específicos. “É uma história gigantesca. Cento e quarenta anos não é pouca coisa, envolve muito material”, comenta.

Klécio reuniu todos esses dados e os apresenta de forma atrativa para o leitor, num texto mais jornalístico do que acadêmico. “É para mergulhar na trajetória, desde o século 19 até os dias atuais”, sugere. O jornalismo, segundo ele, ensina os caminhos para contar uma boa história. Cita Laurentino Gomes e Eduardo Bueno, que tornaram atraentes acontecimentos bastante conhecidos.

Próximos projetos
Klécio ainda pretende escrever muito sobre Pelotas. Um dos projetos que aguarda o momento certo para ser iniciado é o referente à vida e à obra do pintor Leopoldo Gotuzzo. Também há intenção de ampliar, a partir do Teatro do imperador, o capítulo sobre as companhias artísticas que passavam por Pelotas, fazendo uma relação entre os três teatros (Sete, Solís e Colón). Outros projetos que considera desenvolver são sobre o Cinema Mudo em Pelotas e um exclusivo sobre o Theatro Guarany.

Enquanto isso, prepara uma publicação encomendada sobre a história dos Molhes da Barra, na praia do Cassino, considerada uma das obras de engenharia oceânica mais importantes do mundo. Klécio possui uma relação de infância com o balneário, uma vez que seu pai é natural de Rio Grande e, mesmo morando em Porto Alegre, costumava visitar o município.

Comentários Comente

REDES SOCIAIS

Diário Popular - Todos os direitos reservados