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Crônica

Bem-vinda ao time

07 de Janeiro de 2017 - 06h00 Corrigir A + A -

Por Lisiani Rotta - lisirotta@hotmail.com.br

- Ana? Tá acordada?
- Agora tô.
- Não tô conseguindo dormir.
- Preciso lembrar de desligar o celular.
- Sorry, mas preciso falar.
- Às seis da manhã?
- Pra você ver como a coisa é séria.
- Quem morreu?
- Minha menopausa tá chegando.
- Quem?
- A minha menopausa!
- Bom... Um dia acontece.
- O caso é que eu não tô pronta.
- Não precisa.
- Você não tá entendendo. Eu preciso parar esse trem.
- Se descobrir como, me avise.
- Pelamordedeus, diz alguma coisa que me faça sentir melhor! Eu não tô acreditando que isso tá acontecendo comigo.
- Aconteceu comigo também. É de praxe com quem tá viva, em determinada idade.
- Muito animador.
- O que quer que eu diga?
- Sabe o tal calorão do meio da noite? É verdade! Eu senti!
- Vai me ligar sempre que sentir?
- Senti como se estivesse queimando, prendendo fogo. Tipo a Sônia Braga em Saramandaia, lembra? Tive até palpitação.
- Bem-vinda ao time!
- Quando isso vai passar?
- Um dia.
- Que dia?
- Algum dia. Um belo dia. Sei lá!
- Eu entrei no Google pra ler a respeito e quase pirei. Sabe o que diz sobre a menopausa?
- Sei. Calorões, ressecamento da pele, diminuição da libido e do metabolismo, acúmulo de gordura no abdome, depressão (claro), e...
- Desejo de morte, né? Eu quero cortar os pulsos depois dessa previsão macabra.
- Há tratamento.
- E cura?
- Há melhora.
- Melhora? Eu não quero melhorar. Eu quero ficar boa. Eu não me cuidei a vida toda pra ser arrasada por uma menopausa. Isso não é coisa de Deus. Isso é coisa do demo. TPM dos 14 aos 50 e quando, enfim, chega a hora de fechar a fábrica pra virar parquinho eu me deparo com um inferno pior que o de Dante. Só pode ser brincadeira! Queimar no próprio fogo, engordar, ressecar, deprimir e morrer. Quem teve essa ideia? Um ex-marido corno, só pode ser!
- Ok. Tá registrada a sua revolta. Agora eu posso voltar a dormir?
- Como você consegue?
- Já passei da fase do ódio.
- O meu vai me sufocar.
- Calma! Há como atenuar os sintomas.
- Eu não quero atenuar sintomas, eu os quero fora da minha vida.
- Pois deixe de querer. Aceite que dói menos.
- Como você consegue?
- Acho que foi uma história que ouvi na infância sobre uma grávida que fugiu do hospital pra não ter o bebê. Percebi, já nesta época, que há coisas das quais não se pode fugir.
- Sabe de uma coisa? Essa sua resignação me irrita! Acordá-la não foi nem de longe uma boa ideia.
- Tá vendo? Tudo é uma questão de tempo. Mais cedo ou mais tarde a gente acaba entendendo o que precisa entender.

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