Estilo
Crônica

Janeiro

07 de Janeiro de 2017 - 06h00 Corrigir A + A -

Por Maria Alice Estrella - malicestrella@yahoo.com.br

sse gosto de começo é estranhamente silencioso. O ano se delineando lentamente entre expectativas em suspenso no ar no invisível de todos os anseios.

Nas calçadas pouco movimento, nas ruas menos veículos. Diminuem os sons do burburinho das cidades. O verão se instala com dias quentes e abafados. Férias de muitos se contrapõem aos poucos que precisam cumprir horários de trabalho.

Janeiro é o mês do preparo. Como o de uma festa a ser organizada para um grande evento em que se elaboram decisões, se determinam detalhes, se escolhem cenários e locais sob a ótica de mudar para o melhor.

Chances e oportunidades que a passagem do calendário oportuniza para que se possa incrementar a esperança de que “nada será como antes, amanhã”.

Arquitetamos planos, engendramos táticas, estabelecemos metas. Sempre com alusão a um poder que não nos pertence e nos escapa pelos dedos. A areia do tempo é incontrolável e escorre independentemente de nossas vontades, independentemente de datas no calendário. Cada instante tem o seu peculiar sentido, seja em janeiro ou dezembro.

Basta revermos a vida como se fosse um filme em reprise para percebermos que tudo nos ocorreu no tempo certo, embora à primeira vista tivéssemos tido a nítida impressão de que era fora de hora.

O tempo certo, na verdade, é o tempo presente. Sem passado, nem futuro. É o abrir de olhos para a manhã que rompe alma adentro. É usufruir o ar que se respira e arejar os pensamentos. É juntar as mãos para partir o pão e sorver o alimento. É aproveitar a vida no atual, no mágico instante em que escrevo uma palavra e outra a segue e assim vou compondo uma elegia à benção de estar inserida e costurada na existência, porque o minuto que passa se encadeia no seguinte e me permite mais um dia. E o faz com cada um, com todos aqueles que valoram o tempo certo.

Lembro-me de quando era menina e ficava acalentando sonhos, imaginando a vida como uma distante galáxia onde meus planos se acomodavam numa espera de vir a ser. Tudo era tão vago e distante. Mal sabia eu que a vida estava acontecendo ali na minha frente, no presente. E aquilo que eu idealizava ao longe estava bem mais longe do que eu supunha.

Pois o tempo certo é o tempo presente. Sem uso de bola de cristal para voltar ao passado ou perscrutar o futuro.

Todas as chegadas e partidas, semeaduras e colheitas, risos e lágrimas, vitórias e fracassos têm seu próprio tempo, sua irrestrita chance de ser oportunos, no tempo exclusivo e certo do aqui e agora. Pois, sem dúvida, o tempo certo é sempre o uso adequado do tempo presente sem desperdícios ou imprudência.

E que janeiro traga o prenúncio de que o presente de cada dia tenha a medida exata que permita viver a realidade que se apresenta com boa vontade e entusiasmo.

Que sejamos surpreendidos, no bom sentido, por mais sorrisos e menos inquietações, por mais afeto e menos desavenças, por mais certezas e menos inseguranças, vivendo um dia de cada vez com a extensão que lhe é peculiar e que lhe é devida.

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