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Porta-vozes de um outro saber

Dez anos depois do reconhecimento, Ação Griô resiste e ganha mais espaço na academia

18 de Março de 2017 - 13h00 Corrigir A + A -

Por: Ana Cláudia Dias
anacl@diariopopular.com.br 

Mestre Batista detinha a técnica de confecção do tambor sopapo, instrumento de origem africana. (Foto: Divulgação)

Mestre Batista detinha a técnica de confecção do tambor sopapo, instrumento de origem africana. (Foto: Divulgação)

A griô pelotense tem compartilhado suas memórias com oficineiros de diferentes idades e regiões, como na oficina que ocorreu na Feira do Livro da Furg, em Rio Grande, este ano. (Foto: Divulgação)

A griô pelotense tem compartilhado suas memórias com oficineiros de diferentes idades e regiões, como na oficina que ocorreu na Feira do Livro da Furg, em Rio Grande, este ano. (Foto: Divulgação)

"Não existe outro sentido na cultura que não seja dar valor a esse conhecimento, a esse saber” Denise Bussoletti Professora/doutora da UFPel

Há dez anos começava em Pelotas uma caminhada de reconhecimento dos saberes populares e da tradição oral. Elevados a mestres griôs pelo programa Cultura Viva, do Ministério da Cultura, dois pelotenses: Neives Meirelles Batista, o Mestre Batista, morto em 2012, e Sirley da Silva Amaro, atualmente com 81 anos, tiveram a oportunidade de mostrar a suas comunidades e ao país o quanto de histórias e memórias importantes eles continham. Um trabalho que não se encerrou com o fim do projeto nacional Ação Griô, pelo contrário, mantém-se firme e cada vez mais valorizado.

Foi em 2006 que o Ministério da Cultura deu abrangência nacional ao Ação Griô. Um projeto nascido a partir da pedagogia Griô, criada pelos pesquisadores Lílian Pacheco e Márcio Caires - ligados ao Ponto de Cultura Grão de Luz, no interior da Bahia.

No final daquele ano os nomes dos pelotenses, encaminhados à seleção pela UFPel, foram aprovados pelo MinC. A partir de 2007 passaram a ganhar a bolsa de apoio financeiro para que pudessem trabalhar em torno da valorização e da disseminação dos saberes amealhados ao longo dos anos.

Em Pelotas o Ação Griô foi abrigado pelo Ponto de Cultura Chibarro Mix Cultural, financiado pelo Ministério da Cultura, sob responsabilidade da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Na época os professores Eliane Pardo e Paulo Sérgio Medeiros Barbosa coordenavam os trabalhos.
Sirley lembra da primeira atividade como griô: participar de formação pelo Teatro do Oprimido, método teatral desenvolvido pelo teatrólogo Augusto Boal. Um momento ímpar na preparação ao trabalho que estava por vir.

As ações e oficinas, primeiramente, foram sediadas na Escola Municipal Núcleo Habitacional Dunas. Posteriormente, por causa de um problema estrutural no prédio da escola, as atividades passaram a ser desenvolvidas no Instituto de Menores. Irrequieta, Sirley Amaro chegou a burlar as regras do projeto, que indicavam a preparação dos oficineiros pelo griô aprendiz, neste caso, o professor Barbosa, e apresentou suas vivências em outros espaços, por conta própria.

Costureira por profissão, compositora e artesã por vocação e uma natural contadora de histórias, antes mesmo do programa federal reconhecê-la, ela já participava de ações em torno da memória da comunidade negra pelotense. Reconhecida pela comunidade, era procurada por acadêmicos, servindo como fonte sobre a vida social e cultural dos negros no meio urbano de Pelotas, a partir dos primeiros anos do século 20.
Por sua vez, Mestre Batista, aposentado como motorista, manteve na sua trajetória profunda ligação com a música, que o levou a trabalhar em projetos sociais com crianças. Sabia confeccionar diferentes instrumentos, mas ficou conhecido e respeitado por se dedicar a preservar a história do tambor sopapo.

Novo momento
Com o fim da bolsa em 2009, os griôs pelotenses continuaram seu trabalho com o apoio de entidades locais e instituições de ensino, como as universidades Católica e Federal. Nesta época Pelotas contava com mais um griô, Dilermando Freitas, que foi reconhecido sete meses antes do término do projeto nacional.

“Quando terminou a bolsa ficamos desolados. Surgiram notícias de que a bolsa iria voltar. Mas não”, lembra Sirley. Pelo Brasil, alguns sem o provento tiveram de parar suas atividades. Mas a costureira pelotense continuou a função de mestre de tradição oral, apoiada pelo Clube Cultural Fica Ahí, pelo Cetres da UCPel e, posteriormente, pela UFPel, através do Núcleo de Arte Linguagem e Subjetividade (Nals).

O que não era oficial
O Nals, da Faculdade de Educação (FaE/UFPel), abriu espaço para estes mestres a partir de 2008. A professora/doutora do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFPel, Denise Marcos Bussoletti, explica que o Nals se aproximou dos griôs ao propor um trabalho que tentava contar a história da Pelotas negra, não oficial. “Fomos procurar porta-vozes dessas histórias, como o Mestre Batista, a dona Sirley e a tia Maruca”, conta.

A aproximação resultou, por exemplo, no 1º Fórum Internacional de Contadores de Histórias: Catadores e Contra-Dores, em 2009. Também na dissertação de mestrado Narrativas de educação e resistência: a prática popular griô de dona Sirley (2013), de Cristiano Guedes Pinheiro. O tema, atualmente, é alvo de pesquisa de outro mestrando, Felipe Martins, e do doutorando Vagner Vargas.

Segundo o Vargas, doutorando em Educação, o grupo busca pesquisar a história oral e as artes, as diversas nuanças e os hibridismos entre elas, para que eles, como pesquisadores, consigam chegar em sujeitos que não são aqueles postos como o centro da história tradicional. “Dentro disto, o Nals busca ir ao encontro destas pessoas e estabelecer diálogos para compreender as maneiras como elas desenvolvem os seus processos de identidade, conhecer seus conhecimentos e se aliar a elas nas interlocuções necessárias aos desenvolvimentos dos trabalhos delas.”

Hoje somente Sirley Amaro continua junto ao Nals. “Se você for pensar, ela só entrou como mestra para o Ação Griô porque já fazia essas atividades na cidade, quando a bolsa terminou ela continuou fazendo. O problema é que ela ficava desamparada na procura por editais, por exemplo. Neste período, por causa do fórum, percebemos nela um ícone que perpassava todo esse ideal”, diz o mestrando em Educação, no eixo Narrativas Populares, Felipe Martins, que atua junto ao Nals.

Parceria consolidada
Esta caminhada em conjunto só se consolidou em 2013. Martins explica que a griô, em parceria com o clube Fica Ahí, pleiteava um edital de fomento. Por meio do Nals, o acadêmico e outra colega ajudaram a formatar o projeto.

A colaboração foi tão produtiva que foi criado o projeto Confraria do Fuxico. “Com a dona Sirley foi diferente dos outros griôs. Continuamos com ela até hoje. É uma grande aliada do nosso projeto. Mestra da cultura popular, está conosco em outros projetos. Ela conta história através da música e tem absoluta inteligência”, fala a educadora Denise Bussoletti, que pretende até o final deste ano editar um livro sobre a vida da griô.

Dona da sala
Segundo Felipe Martins, uma das qualidades do projeto é manter uma ligação que busca por horizontalidade nesta relação. “Que a gente encontrou com a proposta de dona Sirley. Ela se sente dona da sala (onde funciona o Nals), daquele espaço. A ideia do grupo é justamente esta, que a sala seja dela mesmo. Isso é o mais bacana, que a gente tem conseguido construir ao longo desses anos.”

Para o mestrando, muito mais do que ouvir é deixar que a Universidade seja um espaço para estas histórias também. “A gente consegue perceber que atingiu o nosso objetivo quando ela se reconhece dona da sala. Ela sabe que pode propor atividades lá dentro e não é mais a gente que propõe para ela fazer oficinas nas nossas aulas. É um jogo que troca o lugar de protagonismo.”

Comemorações
No final do ano passado a griô conquistou mais um prêmio, desta vez ele veio da vizinha cidade de Rio Grande. Por meio de edital de reconhecimento de Mestres da Cultura Popular, da Universidade do Rio Grande (Furg), a pelotense vai poder comemorar de forma especial estes dez anos de trajetória.

O projeto irá reeditar as primeiras oficinas de Sirley como griô. Como todo o trabalho começou no Dunas, será lá o palco da primeira atividade, que ocorrerá dia 29 deste mês, às 10h. O Instituto de Menores também irá receber uma ação, mas a data ainda não foi definida.

A professora Denise destaca que a sociedade capitalista perdeu a capacidade de contar histórias, produzindo o que já está posto e a essa história vai se apagando. “Eles (os griôs) são porta-vozes dessa luta contra o esquecimento da nossa trajetória. Não existe outro sentido na cultura que não seja dar valor a esse conhecimento, a esse saber.”

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