Estilo
Crônica

Memória seletiva

18 de Março de 2017 - 06h00 Corrigir A + A -

Por Maria Alice Estrella - malicestrella@yahoo.com.br

Com a ajuda inestimável da infinita capacidade de memória do computador interno do cérebro é possível acionar dados registrados de forma aleatória e não, obrigatoriamente, sucessiva.

Até onde se alcança a lembrança dos fatos da existência, desde as primeiras impressões até as atuais, basta situar uma época específica, que, num passe de mágica, personagens dos mais variados aparecem. E é bem simples compreender tais aparições. Pessoas que cruzaram trajetos comuns e ficaram inseridas no enredo de que se é protagonista.

Quando não se consegue lembrar algumas pessoas, se atribui, rapidamente, o lapso a uma falha da memória, justificada pelo excesso de informações, ou por um problema de cansaço mental. Justificativas se sobrepõem para desculpar a lacuna, que nada mais é do que a clara evidência de que só registramos o que ficou e apagamos o que passou.

Pois, exatamente, pensando nesse detalhe fica evidente que uma linha invisível separa gente que fica de gente que passa.

Gente que até pouco convívio teve com nosso dia a dia e, mesmo assim, é constantemente, lembrada. Gente que fica na memória, sinalizando sua passagem com o carimbo de permanente. Pertencem ao grupo raro de pessoas que chegaram para ficar. Pouco importa o tempo, a distância, os descaminhos, o parentesco. Pessoas que têm nome, identidade, comprometimento com a parte mais íntima dos sentimentos que despertaram com a sua presença. Estranhos peregrinos numa mesma estrada que se achegam para uma conversa e partilham um pedaço de si mesmos para criar laços sem medo de envolvimento. Porque gente que fica é gente destemida, que não represa emoção e nem recusa oportunidades de mergulhar fundo nas águas desconhecidas do outro.

De forma oposta, gente que passa não deixa rastros. Passa mesmo. Como o vento antes da tempestade ou a brisa de um dia primaveril. É gente provisória que nunca disse a que veio. Escorregam das relações como crianças num parque de diversões, que correm entre um e outro brinquedo. Gente que não sabe criar raízes, que desconhece a cumplicidade, que tem medo de mostrar o lado de dentro. Submergir num relacionamento?

Nem pensar. Fora de cogitação. Pessoas que ficam sempre na superfície de todas as situações, mesmo tendo a oportunidade de conviver durante muito tempo com alguém. Depois que passam, ligam para cumprimentar por alguma data especial, convidam para um jantar, numa extrema polidez e aparente gentileza. Porém, nada mais, além disso. Pessoas assim deixam de lado o melhor da festa na vida. E o pior é que esse tipo de gente se acha feliz, julga que escolheu a melhor postura. Mas, pessoas que passam não deixam registro no arquivo da existência porque pertencem ao grupo dos não lembrados.

Felizes são os que, ao acionar as lembranças, ficam com a casa cheia no meio de uma mistura de sons, risos e fisionomias que atravessam a ponte do tempo e se reúnem para o aconchego que justifica uma vida inteira. Têm o privilégio de possuir muita gente que ficou e nem dá para notar o vazio deixado pelos que passaram.
Que tenham sempre o visto de permanência todas as pessoas que queiram ficar e que seja dada para as que furtivamente passam a mera concessão de passageiros em trânsito. A memória se encarrega de selecionar os viajantes.

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