Estilo
Crônica

Como eu costumo dizer...

14 de Abril de 2017 - 06h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Lisiani Rotta - lisirotta@hotmail.com.br

Bom livro é aquele que continua após a última página. Aquele que nos desacomoda, não sai da cabeça e, como diria a minha avó, o que nos põe macaquinhos no sótão.

- Queres sobremesa, Ana?

- Não. Obrigada.

- Não gostas de doce?

- Gosto, sim.

- Exageraste no almoço?

- Não. Estou bem.

- Não gostas muito. É isso?

-Gosto, sim. Muito.

- Nenhuma sobremesa te agradou?

- Ao contrário. Todas têm um aspecto maravilhoso.

- Dieta?

- Não.

- Já sei! Tu deves ser daquelas que preferem comer doce algumas horas após o almoço, não é?

- Não. Não se trata disso.

- Trata-se de que, então? A que horas tu comes a sobremesa?

- Quando eu sinto vontade.

- Então, tu não gostas de doce como eu. Quem gosta muito tem vontade sempre.

- Eu não sei se eu gosto como tu, por que não sou tu pra saber o quanto tu gostas. Eu gosto muito, embora não esteja com vontade neste momento.

- Quem gosta mesmo, não resisteeee.

- Eu não estou resistindo.

- Tá vendo? Tu não és muito de doce. Se fosses, só de olhar sentirias vontade.

- Eu preciso me encaixar em algum destes conceitos? Não posso ser uma pessoa que gosta muito de doce, embora não esteja com vontade de comer um agora?

- Poder pode, mas é difícil de entender.

Assim somos nós. Únicos. Originais. Muitas vezes, difíceis de entender. Porém, somos o que somos. Nem sempre nos encaixaremos em conceitos que nasceram antes de nós.

Respondendo a um leitor que se diz surpreso por eu ter gostado do livro da Regina Navarro Lins, sendo eu uma mulher casada e a escritora uma pessoa que questiona o casamento, o amor romântico e a fidelidade nas relações estáveis: sim, eu amei o livro. E também, adoro ouvi-la. Trata-se de uma mulher madura, liberal, de ideias originais e teorias muito interessantes sobre o comportamento amoroso e sexual da nossa época. O que eu sinto eu conheço, posso compreender; quero compreender os sentimentos que desconheço. Tenho claro que são as diferenças que abrem a nossa mente, se não para nós mesmos, para o mundo e a época em que vivemos. Não precisamos concordar inteiramente com uma pessoa para admirá-la e considerar as suas ideias. Não precisamos sentir da mesma forma para compreendê-la. O ser humano é muito complexo, são infinitas as combinações entre a genética, as sensações e as experiências vividas. São tantas as variáveis, que rotular alguém significa negar as suas particularidades, ignorar aquilo que o torna único. Quanto aos relacionamentos, acredito que, nas relações adultas, a lei que rege é o consenso. Quando dois (ou mais) estão de acordo, o resto tem que cuidar da própria vida. Quem viu o filme A garota dinamarquesa entende o que digo. O amor tem várias faces, e é sempre lindo.

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