Estilo
Cultura preservada

Histórias que precisam ser contadas

Coluna Porto Memória sai do papel e ganha espaço em oficinas nas escolas da zona portuária

14 de Abril de 2017 - 12h00 Corrigir A + A -

Por: Ana Cláudia Dias
anacl@diariopopular.com.br 

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Pesquisador Guilherme Almeida descobriu onde ficava o extinto Mercado Regional do Porto

Criada com o objetivo de resgatar a história do Porto de Pelotas, a coluna Porto Memória, publicada no Diário Popular desde setembro do ano passado, saiu do papel para se tornar tema de debate dentro de escolas localizadas na zona portuária. A ação é uma das atividades do Porto das Artes, projeto com patrocínio da Sagres e da CMPC Celulose Riograndense, que começa a levar oficinas e workshops de arte e educação a jovens estudantes da rede municipal de ensino.

O produtor cultural Duda Keiber conta que Porto Memória foi uma das primeiras ações culturais realizadas pela Sagres e a CMPC Celulose Riograndense - empresas que operam no porto de Pelotas desde o ano passado - com o intuito de aproximar a comunidade do trabalho que ali seria desenvolvido. “Na época era muito questionada a movimentação que as empresas fariam ali”, diz.

Além da coluna, o diálogo com a comunidade se deu de outras formas e os resultados destas conversas ainda estão em desenvolvimento. Uma das ações foi focada na estrutura do local, com asfaltamento de rua e drenagem no entorno do Quadrado, algo há muito desejado por moradores. “Ali sempre foi um porto. Em algum momento essa movimentação foi menor, mas sempre ocorreu, agora obviamente aumentou e muito.

Mas para isso era necessário que um desenvolvimento estrutural também acontecesse”, fala o produtor cultural.

Mas a ideia de criar um equipamento cultural, que desse espaço à formação e à fruição nessa área, sempre esteve nos planos dessas empresas. Esse desejo deu o impulso ao projeto Porto das Artes, que no futuro deve ter uma sede para as pautas culturais da região.

Aproveitando o apoio que a Sagres já dava a alguns movimentos que aconteciam no bairro, outras iniciativas foram selecionadas para receber patrocínio, sob a guardo do Porto das Artes, como o Sofá na Rua, o Cruzeiro do Saber e o Porto Memória nas escolas.

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Ao longo das publicações, Almeida tem desenvolvido a coluna de forma cronológica (Foto: Nauro Júnior)

Foco na região
Há pouco mais de dez dias o arquiteto e urbanista Guilherme Pinto de Almeida, responsável pela coluna, está revivendo as histórias que dão conta do desenvolvimento da zona portuária do município junto com estudantes do Ensino Fundamental. Foram contempladas com esta atividade as escolas Carlos José Laquintinie, Ferreira Vianna e Jeremias Fróes, que abrigarão os encontros quinzenais com os alunos. “Em certo momento a gente imaginou que era interessante levar este conhecimento para as escolas resgatar a história de um porto que nunca morreu.”

Almeida explica que o foco destas atividades será a história da região portuária. Mas, sempre que possível, o tema dos encontros será adequado ao conteúdo que está sendo ministrado e poderá ser aproveitado por diferentes disciplinas. Em uma das escolas, por exemplo, a professora de Geografia solicitou que o pesquisador falasse sobre as águas, pedido que será atendido.

Ao longo das publicações, Almeida tem desenvolvido a coluna de forma cronológica. Mesmo com um cronograma previamente escrito, as oficinas estão prontas para irem além. “As direções das escolas pediram para que falássemos da própria escola também, que não deixam de fazer parte da história do local”, diz o pesquisador.

E não é só o arquiteto que vai passar conhecimentos. Em determinado momento Almeida vai querer que os estudantes tragam o que têm de memória do Porto, como fotografias antigas e histórias de família. “A preservação está muito ligada ao conhecer e a coluna Porto Memória é importantíssima dentro de todo o resgate que está acontecendo nesse espaço. Vai também ser responsável por apresentar aquela localidade a seus moradores”, argumenta Duda Keiber.

Feliz com a novidade, Guilherme Almeida diz que esse desdobramento da coluna “é uma surpresa boa”. “Penso que a conscientização quanto patrimônio que os cerca, através do resgate da memória, poderá reforçar sua identidade e levá-los a ter uma melhor relação com o local e a cidade onde vivem.”

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Aluno Rodrigo de Mattos gostou de
ver como era o bairro. (Foto: Nauro Júnior)

Primeira experiência
No dia 5 deste mês alunos dos sétimo e oitavo anos da Emef Jeremias Fróes participaram da primeira oficina. “É bastante interessante porque os alunos estão reconhecendo na história o lugar onde moram”, diz a coordenadora pedagógica Mabel Manetti Damasceno, que já pensa em expandir o projeto a outras turmas. “Ele (Guilherme) trouxe imagens antigas específicas da região do porto, coisas que eles não vão encontrar nos livros didáticos.”

A professora de História da escola Sílvia Lopes aprovou o projeto. “É maravilhoso que eles percebam a importância desta região e o quanto de história existe em torno deles”, fala. Apesar de os alunos da sétima série estudarem o Brasil colônia e os da oitava, os acontecimentos mundiais, a educadora pretende fazer conexões entre o que ocorreu em Pelotas com o desenvolvimento do resto do país e do mundo.

Empolgado com a oficina, Rodrigo Menezes de Mattos, 16, aluno da oitava série, foi um dos que mais participou com perguntas e considerações. “É interessante reconhecer os lugares”, fala. Sobre o que mais lhe impressionou, ele lembra que os navegantes demoravam meses para chegar aos seus destinos. “Hoje é tudo mais fácil.”

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Achado histórico
E neste processo não somente os leitores e agora os alunos estão sendo apresentados a novidades sobre a história da cidade, recentemente o próprio Guilherme de Almeida foi surpreendido por uma descoberta muito interessante para a historiografia da cidade. Olhando minuciosamente a um registro feito pelo fotógrafo Carmelo dos Santos Lopes no final do ano de 1921, o pesquisador percebeu que no meio das construções do local estava ao fundo o primeiro e único Mercado Regional do Porto.

Almeida diz que o Mercado Regional do Porto existiu “ao menos durante o início década de 1920”. “Não por acaso o mercado público do centro da cidade recebera, sobre seus portões de entrada, a inscrição Mercado Central, após a reforma que sofreu entre os anos de 1911 e 1914. Ou seja, havia, por parte da municipalidade, intenção de dotar as zonas periféricas da cidade com mercados públicos regionais, de forma a melhor suprir-lhes as necessidades de acesso a mercadorias”, revela.

O Porto foi o único, que se tem conhecimento, que realmente chegou a receber um. Porém até agora não se sabia a localização do prédio. “Arquitetonicamente era bem interessante porque era uma estrutura metálica, desmontável. Um pavilhão bem singular”, fala. Porém, a imagem conhecida da estrutura não deixava clara a sua localização.

Segundo o pesquisador, os arquitetos seguidamente questionavam sobre a posição exata desse equipamento urbano. Durante este processo de pesquisas para a coluna, depois de ver e rever várias imagens concluiu que ficava no mesmo local da alfândega. “Não podemos precisar com exatidão, imagino que a alfândega deve ter tirado proveito, porque aquela área foi aterrada.”

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