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Brasil, de amor eterno seja símbolo

13 de Setembro de 2017 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Paulo GaigerProf. Dr. do Centro de Artes da UFPel; cantor, ator e diretor teatral.

 

 

 

A miss Brasil é negra, lá do Piauí. Uma mulher linda. E é esse o atributo que está em questão em um concurso de beleza feminino, um evento, dizem, já meio sem sentido, mas vai. Monalysa Alcântara foi agredida e menosprezada através das redes sociais pelo fato de ser uma mulher negra e, portanto, segundo o povo heroico e idiota da internet, não poderia ser a representante do país. Há poucos dias, a escritora Clara Averbuck sofreu violência sexual pelo motorista do UBER que a conduzia. Clara estava bêbada, o que não é um pecado. A questão não foi o excesso de trago, mas o fato de ela ser uma mulher. Brasil, florão da América, em tua terra adorada 503 mulheres a cada hora foram vítimas de violência no ano de 2016. Pátria amada, Brasil, tu lideras o ranking mundial de assassinatos de transexuais. Medalha de ouro em estupidez. Entre outras mil, és tu Brasil um dos piores países para mulheres, homossexuais, negros e transexuais. Ó Pátria amada, dos filhos deste solo és mãe gentil, violentada diariamente com o braço forte de teus próprios filhos machos. Uma professora recebeu socos de um adolescente de quinze anos, aumentando a estatística de agressões a professoras por todos os cantos deste impávido colosso. Se a palavra justiça ainda é um horizonte distante, talvez o seja porque mulheres, transexuais, pobres, negros e homossexuais despertem a ira e a nostalgia perversa das fogueiras da inquisição. Os EUA podem nos espelhar, afinal de contas, embora Trump tenha ao seu lado, por exemplo, as grandes indústrias do armamento que precisam da explosão de conflitos e guerras por todo o planeta, foi o seu discurso xenófobo, racista, homofóbico e contra os pobres que o levou à presidência. Se levarmos em conta que as corporações privadas da saúde, as grandes empresas contaminadoras também o apoiaram, tem uma certa coerência as decisões de acabar com o chamado ObamaCare e com os tratados de proteção do meio ambiente. Isso tudo deve ter pesado muito menos do que o vizinho gay, o garçom mexicano, o amigo trans e a mulher dirigindo o escritório, na hora da escolha. Por quê? Porque somos idiotas e culpamos os outros, sempre os mais vulneráveis e diferentes, aqueles que podem desequilibrar os pilares da injustiça e da ignorância que sustentam a moral vigente: aos olhos do gigante deitado eternamente em berço esplêndido, melhor um negro escravo do que um negro na universidade; melhor ser açoitado diariamente pelo sistema financeiro do que nosso filho ser homossexual; melhor um governo branco e corrupto do que ir às ruas bater panelas; melhor um candidato disposto a fuzilar bandidos/pobres/negros do que um candidato disposto a investir em educação e igualdade social; melhor a destruição de uma das maiores reservas ambientais do país, dos bosques que têm mais vida, do que uma transexual querendo seus direitos; melhor poder estuprar impunemente mulheres, queimar mendigos e massacrar índios do que essa gentinha dos direitos humanos; melhor a barbárie que nos enclausura do que o respeito à diversidade que nos liberta; melhor se apoiar no senso comum do que na reflexão e na leitura. Parece que caminhamos deliberadamente para um tempo de violência e discriminação nunca vivido. E estamos no ano de 2017, com a oportunidade de alcançar a informação, de repensar nosso dia a dia, de comungar espaços, de ouvir os outros, de escolher uma vida melhor para todos. O Brasil, de um sonho intenso e paz no futuro que nunca chega, precisa repensar o seu presente. As iniciativas Meu sonho não tem fim, Greenpeace, Anistia Internacional, Transparência Brasil, Tamar, Anjos e Querubins, o Banco de Alimentos de Pelotas, entre tantas, podem nos acordar para transformar este país, se queremos paz, justiça e fraternidade. Por enquanto, não somos dignos de nossa terra adorada.

 

 

 


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