Coluna

Como combater a corrupção?

14 de Setembro de 2017 - 08h12 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Germano Rigotto - ex-governador do Estado

“Não estamos diante de uma patologia que possa ser curada
com analgésicos. Ou vamos a fundo no problema, atacando em todas as suas pontas, ou continuaremos patinando como nação”

O combate à corrupção precisa ser muito mais profundo e multilateral, assim como são as próprias causas, do que ocorre hoje. O psicólogo e psicanalista Luiz Hanns, em uma aula publicada pela Casa do Saber, aprofunda um pouco mais essa discussão. Ele mostra que há pelo menos três tipos de corrupção que se reforçam e reproduzem.

A primeira delas é a corrupção sistêmica, bastante conhecida. Trata-se da junção de pessoas de mau caráter com um sistema que permite ou é vulnerável a desvios e práticas criminosas. Junta empresários gananciosos, detentores de cargos públicos inescrupulosos com brechas formais que permitem a ilicitude disfarçada. A única forma de fazer esse combate específico é acabar com a impunidade por meio de um controle maior e mais eficiente, capaz de tornar o custo do crime inviável, desvantajoso. Ou seja, manter os corruptos acuados. O Brasil precisa vencer a sensação de que o crime compensa.

A segunda é a corrupção endêmica, aquela que está esparramada, capilarizada por todos os cantos da sociedade. É uma cultura impregnada pelo desvio, o famoso “jeitinho brasileiro” - somos o único lugar do mundo em que delinquir ganhou até uma forma carinhosa de designação. Nesse caso, estamos falando de uma postura popular que se revolta contra o escândalo do setor público, mas pratica e até naturaliza pequenas corruptelas cotidianas. Tais como não devolver um troco dado a maior, subornar o guarda ou o fiscal, furar a fila, usar a vaga de estacionamento destinada ao deficiente físico, e por aí afora. Todos sabem do que estou falando.

Essas duas espécies deslizam uma em direção à outra. Elas reificam o sistema e se retroalimentam. As brechas são um convite aos malfeitores. E os malfeitos se reproduzem diante de tantas possibilidades para isso. O crime é sempre o encontro de uma intencionalidade com uma ocasião. A ocasião faz o ladrão, diz o ditado. Pois bem: nossa organização institucional e essa parte negativa do nosso caldo cultural formam um casamento perfeito para a desordem. Isso precisa ser freado.

E, por fim, a terceira espécie de corrupção citada por Hanns é a sindrômica, que tem várias causas, fatores e vertentes. Está presente no espírito de burocratismo existente no país, que se constituiu por meio de uma produção legiferante simplesmente inalcançável. Decorre da visão patrimonialista do Estado. Refiro-me, por exemplo, às inúmeras leis insupríveis que existem ou àquelas criadas apenas para figurar, que viram mera letra morta. Na verdade, esse descrédito do arcabouço legislativo, seja constitucional ou infraconstitucional, é o oxigênio para fazer esse sistema contraditório respirar. É a gasolina que permite ares de normalidade e moralidade a algo que, na verdade, está corroído por dentro. Serve ao aparelho estatal corruptível, serve ao cidadão corruptor.

O primeiro caminho é gerar consciência de quão grave é o nosso quadro e, a partir disso, despertar um verdadeiro levante de mobilização, incluindo dos políticos aos cidadãos mais simples. É hora de uma revisão cultural e institucional sobre as causas e as ferramentas da corrupção no Brasil. É hora de cultivar uma espécie de tolerância zero com a corrupção, mas sem generalizações - que só beneficiam os maus. É hora de reformar nossa Constituição e nossas estruturas institucionais. Não estamos diante de uma patologia que possa ser curada com analgésicos. Ou vamos a fundo no problema, atacando em todas as suas pontas, ou continuaremos patinando como nação. É nosso dever legar um país melhor às gerações que nos sucederão.


Comentários

Diário Popular - Todos os direitos reservados