Artigo

Carta a João e seu amigo Não-Jorge

10 de Janeiro de 2017 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Paulo Luis Rosa Sousa,
Piratini, terceiro distrito prosasousa@gmail.com

João, o meu neto de seis meses de vida, intrauterina, é um sabido, pois, de duas celulinhas de nada o cara, nessa meia dúzia de meses, é hoje um portento químico, à base de carbono e já com intensa vida afetiva que abarca não só o bairro Claustro da Velha, onde mora, mas também estabelece seus primeiros laços com Não-Jorge, guri do mesmo calibre que mora no mesmo bairro, só que noutra casa.

A locadora do João se chama Paula, a do Não-Jorge, Aninha. Ambos locatários mirins estão de mudança marcada lá pra fevereiro ou março ou abril e já avisaram as proprietárias dessas novidades, evitando, assim, futuros problemas. Como sei que são amigos? Porque as locadoras se gostam. Isso basta? perguntam os incrédulos. Se nossas mães se gostam o que temos nós a ver com isso? Lamento informar, queridos, mas a máxima “Velha é destino” segue vigente. Verão, como até aqui viram todos, que se as Velhas se tornam amigas os filhos seguirão seus passos. Elas conhecem todos os engenhos para fomentar que herdem vocês as decisões afetivas que elas julgarem corretas: brincar com este, afastar-se daquele, trocar presentinhos para o desembarque, uma camisinha tal porque vai ser calor, esse carpinzinho assim pra quando o frio chegar. Cabeça de mãe marca rumos. Aos filhos, o caminho que elas abrirem resta.

Agora, nem tudo é assim tão cristalino. Há mistérios. Nossa reportagem conseguiu contato com os pais de Não-Jorge. Por que esse nome nunca visto? Com doçura e firmeza revelaram ser algo provisório, mas que a decisão estava tomada: nunca teria o filho o nome Jorge, não simpatizam, não querem, não conhecem ninguém interessante com tal apodo. A reportagem insistiu, mas e Jorge Luis Borges, com tão belas poesias: “Todavía hay un corazón central que no trafica sueños...” arriscou o repórter. Em vão. Nada os demoveu, mesmo tendo passado por George Harrison, George Clooney... o Rei George, Seu Jorge, Salve Jorge. Nada.

Relata-se aqui o inusitado fato, cujo pano de fundo é “Velha é destino” - nós, os pais, sempre secundários - porque esse guri já é amigo do João, mas nunca sequer simpatizará ou olhará para nenhum Jorge, assim está escrito.


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