Artigo

Como as rosas de Malherbe

18 de Março de 2017 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Sergio Cruz Lima

Certa feita, Alfred de Musset escreveu: "É preciso ser ignorante que nem um mestre-escola para se gabar de dizer uma única palavra que alguém na Terra não tenha dito antes". A proposição vale a pena ser esquadrinhada num tempo francamente escancarado a todos os paradoxos, disparates, violências e despotismos, uma vez que pareçam vestir a roupagem do novo.

Quando uma pessoa desperta e deixa o leito para arrostar o dia de trabalho e descobre que está febril, é óbvio que não acha a novidade aceitável. Assim foi quando a peste negra assolou a Europa medieval, aniquilando a população de burgos e cidades, e quando a gripe espanhola ocasionou terríveis baixas humanas na aurora do século 20. Quem hoje acompanha o alucinante flagelo da Aids está impedido de comemorar a novidade. O mesmo se aplica às imagens doridas das populações flageladas pelas drogas ou das intermináveis procissões de desempregados pela televisão.

Sem rebuços, as notícias nem sempre são boas, não obstante tragam o rótulo de novidade. Se observarmos o ontem, veremos que também não são tão novas assim. Aconteceram grandes epidemias, cruéis genocídios e desempregos em massa em outras eras da História. De tempos a tempos, volta à discussão o tema filosófico do eterno retorno. Nos dias atuais, há uma obstinação por tudo que se apresenta como novo, mesmo quando não vai além de velha e sovada realidade, travestida ou mascarada para burlar os puros e ingênuos. E a certificação é válida para o ideário político e econômico, para a moda, a literatura, as artes, os conceitos de vida e as diversas vicissitudes que regem o comportamento humano nas relações sociais. Vive-se da mão para a boca, em matéria de noticiário. O escândalo, o conflito e a falta de educação formam os materiais com os quais se elabora uma cultura fragmentária, alienante e perdulária de talentos, valores, alianças, fidelidade. Alvitra-se o imediato, o efêmero, o provisório, com a evasiva de que tudo deve encaminhar-se à velocidade da luz. Numa era de tecnologia de ponta, os produtos tecnológicos padecem o envelhecimento planejado, a que se atribui a solene alcunha da obsolescência planejada. Fabricados com o fado de não resistirem à ação temporal, os aparelhos eletrônicos, às vezes, duram uma simples manhã, como as rosas de Malherbe: "Et rose, elle a vécu ce que vivent les roses". Ou: E rosa, ela viveu o que vivem as rosas. Na loucura do século 21, pergunto, o que falta para que se acelere a gestação dos bebês e se lancem na fúria sem freios do mercado indivíduos econômicos, insípidos e descartáveis?


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