Artigo

O glifosato é uma ameaça real e o seu efeito tóxico ainda é pouco conhecido

18 de Março de 2017 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Marcelo Dutra da Silva-Ecólogo - dutradasilva@terra.com.br

O excesso de confiança é um perigo, engana e naturalmente nos conduz ao erro, repetidas vezes. Outro dia escrevi sobre o glifosato e sua possível associação com câncer, autismo e outras doenças. Uma semana depois o químico Cícero Coelho Escobar revidou com críticas, alegou segurança ao uso e me acusou de promover pânico, em nome do alarmismo fácil. Isso se tratando de um produto tóxico, reconhecido pelo fabricante como potencialmente perigoso para o meio ambiente, que tem despertado o interesse da comunidade médica, cujos efeitos da toxicidade, aos poucos, vêm se tornando conhecidos, a partir de trabalhos científicos variados, que apontam para sua malignidade e ameaças à saúde humana.

No texto anterior citei um artigo que registrou a suspeita relação entre o aumento de casos de câncer em uma comunidade agrícola na Argentina, exposta ao uso do frequente do herbicida glifosato. Que bom que fosse, apenas, um caso isolado. Infelizmente é possível encontrar na literatura dezenas de trabalhos semelhantes, todos buscando correlacionar essa possibilidade. Aliás, algo importante em investigações baseadas em observação e registro dos fatos (empírica) é que o aprendizado se dá através das experiências vividas e presenciadas, onde tendências são construídas a partir de um conjunto de evidências, extraídas de casos variados, nunca isolados.

O glifosato é o mais utilizado no mundo e está em todo lugar. Testes em alimentos, realizados pelo laboratório americano Aresco, credenciado a Food and Drug Administration (EUA), encontrou níveis alarmantes de contaminação nos mais variados produtos, revelando o quanto é frágil a regulação dos resíduos de pesticidas naquele país. O estudo Glifosato, feito por solicitação do Food Democracy Now!, revelou que produtos alimentares muitos populares nos EUA e no mundo, inclusive no Brasil, de famosas marcas de salgadinhos, apresentam valores de contaminação assustadores.

Nos EUA é considerada segura a Ingestão Diária Aceitável (IDA) de 1,75 mg/kg/dia de glifosato. Na União Europeia o limite cai para 0,3 mg e no Brasil para 0,042 mg, porém o glifosato não está incluído nos testes da Anvisa para resíduos de agrotóxicos em alimentos, embora seja um dos mais consumidos por aqui. E pequenas doses podem causar grandes efeitos. Conforme o portal do Detox Project, criado para ajudar a entender mais sobre os prováveis danos causados por herbicidas à base de glifosato em todo o mundo, a concentração de 0,1 parte por bilhão (ppb) é suficiente para causar danos severos em órgãos de ratos, 10 ppb pode promover efeitos tóxicos no fígado de peixes e de 700 ppb alterações em rins e fígado de ratos. Todos valores encontrados em experimentos publicados na literatura.

E enquanto tratamos a precaução e o esclarecimento público como alertas falsos, em benefício ao uso exagerado e despreocupado dos herbicidas, a agência de câncer da Organização Mundial de Saúde Iarc declarou que o glifosato é um provável carcinogênico humano, a Europa discute banir o uso e investigadores da Facultad de Bioquímica de la Universidad Nacional de Rosario (Argentina) comprovam, em artigo publicado na revista NeuroToxicology, que o glifosato ataca os neurônios e tem efeitos irreversíveis no sistema nervoso. Portanto, se é possível encontrar concentrações acima de 11 mil ppb na soja transgênica é bom, no mínimo, ficarmos preocupados.


Comentários


  • Não há comentários, seja o primeiro a comentar!

Diário Popular - Todos os direitos reservados