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Ainda existe espaço para o amor?

13 de Fevereiro de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Sandro Ari Andrade de Miranda

Fiodor Dostoéivski, com certeza, não era famoso em suas obras pelos traços românticos, mas pela força realista das suas personagens, pela crítica social e pela sua capacidade de trazer ao mundo com precisão o próprio universo onde vivia. Todavia, no mais conhecido dos seus escritos, Os Irmãos Karamazov, perguntou o que é o inferno e a resposta não poderia ser mais surpreendente: “o tormento da impossibilidade de amar”.

Se trouxermos esta discussão para o mundo contemporâneo, controlado por regras rígidas de domínio do tempo, de competitividade e onde o desprezo pelo outro é tratado como mérito, parece que o amor perde espaço para relações hedonistas e mecânicas. Infelizmente, vivemos em um mundo que prega o “desamor”, a instantaneidade à violência simbólica, todas como arte de conquista e de poder. Entretanto, há uma frase clássica que diz que “você só ama de verdade quando não sabe o motivo”, não é a beleza, nem a inteligência, nem a riqueza que guiam as emoções, mas a incerteza.

E aqui temos um ponto crucial para responder à pergunta que dá título a este trabalho. Se vivemos em um mundo dominado pelo cálculo, pela administração do tempo, pelo exercício do poder, pela acumulação, inclusive, de vitórias emocionais, existe espaço para a “incerteza do amor”?

Clive Staples Lewis, o mesmo das Crônicas de Nárnia, disse que em matéria de amor não existe investimento seguro, pois amar é ser vulnerável: “ame qualquer coisa e seu coração se retorcerá e possivelmente será partido. Se você quiser conservá-lo intacto, não o dê a ninguém, nem mesmo a um animal”.

Segundo Lewis, a solução para evitar a vulnerabilidade do amor é viver cercado de tarefas, de pequenos luxos, de passatempos supérfluos, “é trancar-se no túmulo do egoísmo”. Neste mundo sólido, sombrio, inabalável, inquebrantável, nenhum coração será partido pela dor de um amor sem reciprocidade. Por óbvio, será um mundo sem riscos, entretanto sem crescimento, sem existência, sem vida. Será o mundo da atrofia dos músculos, da alma, da mente e do coração.

Também devemos discutir o que é o amor. Afinal, em uma sociedade onde as pessoas estão cada vez mais dispostas a se aprisionar como forma de garantir a segurança proposta pelo mercado, surge uma nova contradição com o amor, porque este, quando verdadeiro, não te priva, não te manipula, não te segura em uma redoma de permanente distanciamento (o que chamamos de ciúmes). O amor, verdadeiro, é liberdade!

É aceitar que a convivência é co nstruída nas suas imperfeições e defeitos, mas por vontade própria. Quem aprisiona, não ama verdadeiramente, mas se engana e escraviza.


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