Lares
Barreira contra o caos
Como que sabendo das durezas diárias, a casa conforta com nossos espaços preferidos
Carlos Queiroz -
Um dia pode moer um ser humano inteiro. Metas, horários, problemas. Tudo parece sumir, porém, com o abraço que a nossa casa dá quando nela entramos. Como que sabendo das durezas diárias, ela nos conforta com nossos espaços preferidos, nosso sofá confortável, nossas lembranças, às vezes doídas e sempre bonitas. É sempre difícil deixá-la, pior ainda não tê-la.
Formas de habitar
A professora do curso de Antropologia da Universidade Federal de Pelotas, Cláudia Turra, recorre a autores ao buscar explicar a relação humana com as residências. “Kant, por exemplo, trata a casa como a barreira contra o caos, uma concentração de tudo aquilo o que acumulamos”, conta.
Cláudia acrescenta que há muitas formas de habitar - até o não habitar, caso de quem vive em situação de rua e diariamente sofre com o preconceito e a falta de oportunidades decorrentes de tal realidade. A ideia de espaço de privacidade, diz, se constituiu junto com a burguesia. Na expansão do capitalismo, dos meios de comunicação e antes das bibliotecas, as casas começaram a significar um espaço onde se conseguia acessar o mundo todo. “A casa se contrasta com o exterior, a descoberta, a aventura”, finaliza.
Uma vida toda
Inácio Marques da Silva tem 52 anos e mora desde sempre sob o mesmo teto. Os mesmos cômodos e portas que o viram nascer sorriram junto quando ele encontrou a mulher amada e com ela casou, ajudaram a ninar os dois filhos e consolaram a alma quando Doralício e Iva, os pais, primeiros donos da casa, faleceram.
Inácio, o caçula de três irmãos, conta que a família sempre foi apegada e atenciosa à casa que o pai construiu. “Não é pelo dinheiro ou pela localização, eu fico porque sou muito preso às lembranças positivas que tive aqui. Onde eu olho tenho uma recordação gostosa do passado”, diz, sentado à mesma poltrona em que Doralício gostava de descansar do trabalho no antigo Anglo. “Minha infância sempre foi de pés descalços, correndo por aí, tomando banho no canal. Jogava bola até escurecer e minha mãe me chamava de volta”, relembra.
Cláudia Rodrigues começou a conviver com a residência no início do namoro com Inácio e sempre se sentiu em casa. Após o casamento, mudou-se para lá e aos poucos foi trazendo também memórias próprias, de outros lares. Ela destaca o lustre vermelho que trouxe quando a avó morreu e, hoje, fica logo ao lado dos quartos.
Apesar de não fazer disso uma exigência, Inácio deseja que André e Victor, os filhos, sigam a trajetória de tratar a residência como parte da família. “Eu penso igual ao pai. Apesar das perspectivas de sair de Pelotas em algum momento, quero sempre ter a minha casa para voltar”, comenta o primeiro.
Com mais de 60 anos, a casa da família já passou por diversas reformas. Se no início a parte do casal era dividida da de Iva e Doralício por um pátio, hoje tudo é uma coisa só. O apego, porém, permitiu que detalhes fossem mantidos. As portas, por exemplo, inclusive a da frente, são as mesmas de sempre, representando a lembrança física do que o local vivenciou.
Daqui não saio
A história do sucateiro Pedro Pereira com a casa em que vive com a esposa e os quatro filhos é pintada com tons de resistência. Hoje com 70 anos, ele vive há meio século às margens da Ponte dos dois Arcos, no Passo dos Negros, local que nos últimos 20 anos viu se intensificar a especulação imobiliária em prol dos condomínios de luxo. “Se eu não estivesse aqui, tenho certeza de que já teriam demolido a ponte”, comenta, em relação à construção que é histórica para Pelotas tendo em vista a importância no desenvolvimento do charque na cidade.
O primeiro casebre era mais ao fundo, onde ficam os pescadores. O seguinte ele teve de destruir há 12 anos para a construção de condomínio de alto padrão no local. Como compensação, recebeu R$ 7 mil utilizados para reerguer um novo espaço para a família. A intensiva continua, porém. Em 2017 a residência, feita de placas de madeira e formada por um cômodo, onde a família inteira dorme, foi incendiada. Pedro e a esposa conseguiram reconstruir o espaço com a ajuda de diversos setores da sociedade - um porta-retrato com os dois posando junto aos colaboradores simboliza a gratidão e se junta a tantos outros objetos, a maioria oriunda de doações: televisão, sofá, brinquedos, panos de prato com flores, duas piscinas plásticas de diferentes profundidades.
Pedro e a família resistem. Com a existência inteira vivendo no local, rechaçam qualquer possibilidade de ir para bairros como Getúlio Vargas, onde outros moradores da região já foram realocados. “Tenho carinho por esse lugar onde trabalhei com leitaria, criação de porcos e reciclagem. É de onde eu sou”, comenta.
De passagem, mas lar
Há também quem nunca teve casa - pelos diferentes motivos, cada história é uma história e não é válido aqui discuti-las do alto. Há aqueles que, ainda pequenos, mas já com certa consciência, foram colocados em espaço que, de um dia para o outro tornou-se o teto. Fazer com deste local o mais próximo possível de um lar é a missão de instituições como a Casa do Carinho.
Entre meninos e meninas, de idades que vão de zero a sete, são hoje 20. mas Os acolhimentos, entretanto, seguem ocorrendo, por vezes ainda na madrugada e os quartos precisam ser rearranjados para comportarem mais uma vida. “Quando chegam aqui, vêm de uma história de vida muito complicada, então temos que ter compreensão, paciência e oferecer todo o afeto necessário”, diz a psicóloga da instituição, Samanta Rodrigues.
A estrutura de fato é de uma casa, daquelas de tirar o sapato assim que se entra. Televisão, videogame, piscina, pátio, ar-condicionado.
Mas é nas relações humanas que a Casa do Carinho se torna um lar. Nas festas e pôsteres de aniversário, na partilha de realidades e, principalmente, no conforto que proporcionam educadoras como Ana Bandeira. “A gente trata eles como se fossem nossos filhos, dando carinho e limites em igual escala”, comenta. “É uma casa com quartos todos próximos para que eles fiquem assim também”, prossegue a coordenadora, Juliana Quadros.
Dezessete anos com a missão de acompanhar os pequenos em dores e delícias criaram em Ana uma casca: não há tristeza, apenas felicidade, quando um desses novos filhos enfim é adotado por uma nova família. “Eu rezo todos os dias para que aconteça. Aqui é passagem, não é para ser eterno para ninguém”, afirma.
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