Consciência Negra

"O corpo negro ainda é o corpo passível de ser morto mais facilmente", diz o pesquisador Fábio Gonçalves

Entrevista especial desta semana, em alusão ao Dia da Consciência Negra, traz conversa com vice-presidente da Comissão de Igualdade Racial da OAB/RS

Foto: Jô Folha - DP - Fábio Gonçalves palestrou no 1º Congresso Presença Negra, em Pelotas

Professor, historiador, advogado e pesquisador. As inúmeras titulações de Fábio Gonçalves se encontram quando o assunto é a busca por mais igualdade racial na sociedade, luta que se define como missão de vida do pelotense, que também é vice-presidente da Comissão de Igualdade Racial (CIR) da Ordem dos Advogados do Brasil no Estado (OAB/RS).

Em Pelotas para palestrar no 1º Congresso Presença Negra, que ocorreu entre os dias 15 e 16 de novembro, Gonçalves conversou com o Diário Popular sobre a expectativa para o evento, o genocídio da população negra e a importância deste dia 20 de novembro, que marca o Dia da Consciência Negra em todo o País.

Qual a importância da realização do 1º Congresso Presença Negra em Pelotas?
É um marco, um momento diferenciado, porque parte da iniciativa de um poder constituído, que é o Poder Legislativo, que a partir de sua estrutura disponibiliza um momento para que haja protagonismo da comunidade negra pelotense. Não que não tenha havido, todos os anos desde muito tempo nós temos momentos que tratam o tema, isso sempre foi muito bem pontuado. No entanto, com uma estrutura tal qual está sendo disponibilizada, é a primeira vez. Por isso digo que é um marco. O Congresso me parece ter por característica unir as diversas nuances da militância negra na região. Isso é muito interessante também, porque o espaço está disponível, de fato é múltiplo e tem como temática central a negritude. Isso estabelece um referencial para anos futuros.

E a tua participação no evento? Trata do que?
As minhas falas e pesquisas sempre são desacomodadoras e aqui não será diferente. Vou tratar pontualmente da intenção do Estado brasileiro em seguir vitimando um grupo social muito bem definido, que é o grupo social dos negros no Brasil. Vou tratar do fim da vida e de como, efetivamente, o Estado brasileiro segue corroborando para sistematicamente contribuir para o genocídio da população negra no País, mas sob um viés diferenciado. Não apenas dizendo isso, porque esses dados são estatísticos e podem ser facilmente verificados, mas nós vamos denunciar como isso se reflete pontualmente no extremo sul e de como Pelotas é um lócus excepcional para esse tipo de análise.

Quando falas que Pelotas é um 'lócus excepcional' para essa análise, o que isso significa?
A palavra central é sagacidade. O que ocorreu aqui, durante o construto do que entendemos hoje como cidade, sempre se diferenciou do restante do Brasil porque o extremo sul apresentou uma sagacidade no trato da escravização diferenciada. Há inúmeros registros que tratam da ameaça para um escravizado de ser enviado para o extremo sul. Ser enviado para cá sempre se tratou de um castigo ainda mais severo do que a própria imposição da escravização. Por isso digo que aqui temos um lócus exemplar para analisar a imposição ao corpo negro de uma condição de antítese do humano. O eco [dos últimos séculos] ainda é muito forte.

Na sociedade atual, ainda parece necessário perguntar: por que é importante debater essas questões e ter um dia da Consciência Negra?
O senso comum, mas não apenas ele, resiste à compreensão de um momento como este. Se tivesse que te responder em apenas uma frase, diria que é necessário porque nós ainda somos os corpos matáveis preferencialmente. O corpo negro ainda é o corpo passível de ser morto mais facilmente, que é escolhido para isso, aquele para qual se tem menos paciência e diálogo, e aquele que sofre com a menor disponibilização de garantias que são fundamentais para qualquer cidadão. Todas essas frases são amparadas por dados estatísticos. A probabilidade de um jovem negro morrer violentamente é quase três vezes mais se comparado a um jovem não negro, as mulheres negras sofrem mais violência obstétrica, o mito de que a mulher negra suporta mais dor ainda é praticado pela medicina hoje. Ainda somos os corpos que sofrem com a indiferença. Os corpos que são lidos, ainda, como a antítese do humano.

Diante dessa realidade, o que é preciso fazer e pensar para operar mudanças para o futuro?
Duas questões são basilares. A primeira é a preocupação no processo de educação das gerações vindouras. A educação é cura para todos os males. Um jovem bem educado, no que diz respeito à consciência social, será um jovem mais sensível a essas questões. Quando falamos de educação, estamos falando de uma ação preventiva. Do ponto de vista de reparação, a permanência e intensificação das ações afirmativas é preponderante. O século 21 nos apresenta o maior volume de diplomas de reparação se comparado a toda a história recente do Brasil. Na minha leitura, no que diz respeito a diminuir gradativamente os efeitos do que aí está, é o cumprimento efetivo de ações de caráter reparatório que já existem, além da criação de outras. E, como medida de prevenção, o desenvolvimento de um tipo de educação que desperte a consciência humanística das futuras gerações. Do contrário, estaremos 'enxugando gelo'.

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